Escritura e Espiritualidade
Uma pergunta de sete anos
Uma pergunta de criança abre uma reflexão sobre Abraão, a santidade e uma promessa maior do que os nossos dias.
Estes dias, meu sobrinho de sete anos me perguntou qual teria sido o primeiro santo da história. Respondi imediatamente: Abraão. A resposta me pareceu óbvia, por ser ele o primeiro homem, dentro do horizonte histórico da narrativa bíblica, a receber aquilo que podemos chamar de revelação categorial, isto é, uma intervenção de Deus que entra concretamente na história, dirige-se a alguém, chama-o pelo nome e passa a conduzir sua existência a partir desse encontro. Mas, logo depois de responder, me vi pensando mais seriamente sobre o assunto. Afinal, antes de Abraão a própria Escritura já havia chamado Abel de justo, apresentado Henoc como aquele que “andou com Deus” e descrito Noé como “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos” (Gn 6,9). Se eles aparecem antes, em que sentido Abraão seria o primeiro?
A pergunta de uma criança havia me colocado diante de uma questão bem maior do que parecia. Tudo depende do que entendemos por “primeiro”, do que estamos chamando de “história” e, sobretudo, do que significa reconhecer alguém como santo dentro da história da salvação. Se seguirmos a simples ordem em que os personagens aparecem na Bíblia, Abraão evidentemente não ocupa o primeiro lugar. O próprio Cristo fala de “Abel, o justo” (Mt 23,35), e a Carta aos Hebreus afirma que, pela oferta apresentada a Deus, ele “recebeu o testemunho de que era justo” (Hb 11,4). A resposta que dei ao meu sobrinho exigia, portanto, uma explicação que naquele momento eu ainda não havia formulado inteiramente.
E quanto mais pensei, mais me convenci de que continuaria respondendo: Abraão.
Não porque antes dele a humanidade estivesse privada da graça, nem porque Abel, Henoc e Noé devam ser retirados da comunhão dos justos. A razão está no lugar singular ocupado por Abraão dentro da própria estrutura do Gênesis. Os personagens anteriores pertencem à grande narrativa das origens, aos onze primeiros capítulos que a exegese chama de história primordial. Com Abraão entramos no ciclo dos patriarcas e começamos a acompanhar uma existência pessoal que se desenvolve dentro de uma vocação, de uma promessa e de uma Aliança. Por isso, quando o chamo de primeiro santo da história, emprego a expressão num sentido preciso: Abraão é o primeiro homem que encontramos, depois da história primordial, cuja existência inteira nos é apresentada como uma história pessoal alcançada pela Revelação e progressivamente conduzida por Deus.
Os onze primeiros capítulos do Gênesis possuem uma função própria dentro da Bíblia. Criação, Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, Noé e Babel formam uma grande leitura teológica das origens e colocam diante de nós as questões que acompanham a humanidade desde sempre: de onde viemos, por que existe o pecado, como a violência entrou nas relações humanas, por que o homem se afasta de Deus e por que uma humanidade criada para a comunhão termina dividida e dispersa. Não faz sentido exigir dessas páginas aquilo que exigiríamos de uma crônica histórica moderna, procurando datas para Caim e Abel ou tentando localizar o Éden num mapa. O interesse do texto alcança algo maior: colocar o homem diante de Deus e mostrar como a criatura saída boa das mãos do Criador chegou à condição ferida que todos conhecemos.
Então chegamos a Gênesis 12.
O olhar que até ali contemplava a humanidade inteira se volta para um homem. Conhecemos sua família, sua descendência, os lugares por onde passa, os conflitos que enfrenta, as terras que percorre e até o campo que compra para sepultar sua mulher. A Bíblia começa a acompanhar uma história familiar que chegará a Isaac, Jacó, aos doze filhos de Israel e, a partir deles, a um povo. Não conseguimos transformar Abraão num personagem documentado segundo os critérios da historiografia moderna, nem reconstruir arqueologicamente cada episódio de sua vida. Entramos com ele, entretanto, num horizonte diferente daquele de Gênesis 1 a 11. E é justamente nessa passagem da história primordial para a história dos patriarcas que Deus pronuncia uma das palavras mais decisivas de toda a Bíblia: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar” (Gn 12,1).
A partir daqui, a resposta à pergunta inicial começa a ganhar outra profundidade. Abraão não ocupa um lugar singular por ser simplesmente mais um justo apresentado pela Escritura. Sua vocação marca um momento decisivo da Revelação: depois de contemplar o drama da humanidade em sua universalidade, a Bíblia começa a narrar como Deus entra concretamente na história de um homem e faz daquela existência o início de uma obra destinada a alcançar todos os homens.
A posição de Abraão logo depois de Babel torna essa passagem ainda mais significativa. Em Gênesis 11, os homens constroem uma cidade e uma torre cujo cume deveria alcançar os céus e dizem: “Façamos para nós um nome” (Gn 11,4). O projeto termina na dispersão. Poucos versículos depois, Deus chama Abrão e promete: “Eu te abençoarei e engrandecerei o teu nome” (Gn 12,2), acrescentando que nele “serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,3). O Catecismo lê essa sequência com uma frase precisa: “Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolhe Abrão” (CIC 59). Depois de Babel, a resposta divina começa a tomar a forma concreta da vocação de um homem.
Aqui está, para mim, o ponto central. Com Abraão, começamos a acompanhar uma existência que passa a pertencer a uma história maior do que ela mesma. Deus entra em sua vida, pede que deixe sua terra, coloca diante dele uma promessa e começa a conduzi-lo por um caminho cujo alcance Abraão ainda não conhece. Antes de Israel possuir a Lei, antes do sacerdócio, antes do Templo, antes de Jerusalém e antes dos profetas, encontramos um homem chamado por Deus, e a partir desse chamado uma pequena história familiar começa a carregar dentro de si o destino de um povo e uma bênção destinada a alcançar todas as famílias da terra.
Abraão também não aparece pronto. O Gênesis não esconde seus medos, suas decisões equivocadas, suas hesitações e suas tentativas de resolver com os próprios meios aquilo que Deus havia prometido realizar. O homem que deixa sua terra em Gênesis 12 ainda percorrerá um longo caminho até aquele que sobe o monte Moriá em Gênesis 22. Entre uma cena e outra existe quase uma vida inteira, atravessada pela espera, pela fragilidade, por escolhas difíceis e por uma ação de Deus que vai progressivamente alcançando as diversas dimensões de sua existência.
É nesse caminho que encontramos uma das frases mais importantes de toda a Escritura: “Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi contado como justiça” (Gn 15,6). São Paulo voltará a esse versículo em Romanos 4 e chamará Abraão de “pai de todos os que creem” (Rm 4,11). O Catecismo encontra nele o modelo daquilo que chama de “obediência da fé”: “Obedecer na fé é submeter-se livremente à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria Verdade” (CIC 144). No caso de Abraão, essa obediência adquire uma forma concreta. A Palavra recebida passa a determinar suas escolhas e a colocar seu futuro dentro de uma promessa cujo cumprimento ele não controla.
Quando chegamos ao Moriá, compreendemos até onde esse caminho o conduziu.
Isaac carrega consigo muito mais do que o amor de um pai por seu filho. Nele repousa a própria promessa. Deus havia ligado a descendência de Abraão àquele menino e agora pede que o patriarca o ofereça. Quando Isaac pergunta onde está o cordeiro para o sacrifício, Abraão responde: “Deus providenciará para si o cordeiro” (Gn 22,8). A Carta aos Hebreus interpreta esse momento afirmando que Abraão considerava que Deus tinha poder até para ressuscitar Isaac dentre os mortos (Hb 11,17-19).
Moriá mostra a distância percorrida desde o primeiro “sai da tua terra”. Abraão recebeu uma promessa, esperou por ela durante anos e finalmente segurou nos braços o filho que parecia impossível. Agora coloca nas mãos de Deus o próprio sinal visível daquilo que esperou durante tanto tempo. A promessa havia conduzido Abraão até o Deus da promessa. Sua relação com o Senhor alcança aqui uma profundidade na qual já não depende de compreender como cada coisa terminará. Ele conhece aquele em cujas mãos colocou sua vida.
É justamente aqui que a história de Abraão começa a tocar diretamente a nossa vida cristã.
A fé cristã também começa por uma iniciativa de Deus. Antes que escolhêssemos Deus, fomos alcançados por Ele. O Batismo nos inseriu numa história que começou muito antes do nosso nascimento e continuará depois da nossa morte. Recebemos uma vida que não produzimos, uma graça que não conquistamos e uma promessa cujo cumprimento pleno está além dos limites desta existência. Por isso São Paulo não trata Abraão como uma curiosidade distante das origens de Israel. Ele diz aos cristãos: “Os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3,7). Existe uma paternidade espiritual porque existe algo da experiência de Abraão que continua acontecendo em cada pessoa chamada por Deus.
Ser cristão significa aceitar que nossa vida pertença a uma história maior do que conseguimos enxergar. Essa afirmação parece simples até que ela toque concretamente aquilo que somos e amamos. Gostamos de compreender para onde Deus está nos levando, queremos saber que frutos nascerão das nossas escolhas, desejamos encontrar sentido para aquilo que entregamos e esperamos contemplar ainda nesta vida alguma correspondência entre nossa fidelidade e seus resultados. Abraão recebeu a promessa de uma terra e morreu possuindo nela um campo comprado para sepultar Sara. Recebeu a promessa de uma descendência numerosa como as estrelas e viu uma família ainda pequena. Ouviu que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra e morreu séculos antes que essa promessa alcançasse em Cristo a amplitude que carregava desde o princípio.
Sua vida não ficou incompleta por causa disso.
Esse ponto é particularmente importante para uma época que aprendeu a medir quase tudo por resultados visíveis. Também podemos transportar essa mentalidade para a vida espiritual e começar a julgar a ação de Deus pelos frutos que conseguimos contabilizar. Um pai educa os filhos e deseja saber em que homens e mulheres eles se tornarão. Uma mãe ensina uma criança a rezar sem conhecer as noites, alegrias e sofrimentos nos quais aquela oração retornará décadas depois. Um sacerdote entrega anos ao ministério sem ter condições de saber quantas decisões nasceram de uma palavra pronunciada numa homilia que ele próprio já esqueceu. Alguém reza durante anos pela conversão de uma pessoa e morre antes de enxergar aquilo que pediu. Outro permanece fiel a uma responsabilidade que parece produzir frutos pequenos. A medida de Deus atravessa gerações que nossos olhos não alcançarão.
Abraão nos ensina que uma vida não precisa contemplar o cumprimento inteiro da promessa para ter participado verdadeiramente dela. Deus continuou depois de sua morte aquilo que havia começado quando o chamou. Isaac recebeu o que vinha do pai e transmitiu a Jacó. Jacó morreu sem conhecer Moisés. Moisés não viu Davi. Davi não viu o Messias. Os profetas anunciaram aquele que não conheceriam segundo a carne. Os Apóstolos morreram quando a Igreja ainda parecia pequena diante da ordem de levar o Evangelho a todas as nações. Cada um recebeu uma parte de uma obra que nenhum deles conseguiria abraçar por inteiro.
Existe aqui uma libertação espiritual que precisamos recuperar. Nem tudo precisa terminar em nossas mãos. Nem toda semente precisa germinar diante dos nossos olhos. Nem toda oração precisa receber diante de nós a resposta que esperamos. Nem toda obra confiada por Deus a alguém foi destinada a ser concluída por essa mesma pessoa. A fidelidade possui uma fecundidade que frequentemente permanece escondida de quem a vive.
Moriá acrescenta ainda outra dimensão. Em certos momentos, Deus permite que nossa relação com Ele atravesse precisamente aquilo que recebemos e aprendemos a amar como dom seu. Uma missão chega ao fim. Uma pessoa parte. Uma responsabilidade que ocupou anos de nossa vida passa para outras mãos. Um projeto ao qual nos entregamos toma um rumo que não esperávamos. Uma segurança desaparece. Chega então uma hora em que precisamos entregar a Deus até aquilo que um dia recebemos dele.
Essa experiência é dura porque facilmente confundimos a promessa com a forma concreta pela qual esperamos vê-la realizada. Abraão tinha Isaac diante dos olhos e sabia que Deus havia ligado a ele sua descendência. Moriá o obriga a colocar o futuro novamente nas mãos daquele que o prometeu. Existem momentos semelhantes na vida cristã, nos quais a pergunta já não se limita ao que Deus fará com determinada situação. A questão alcança um lugar mais profundo: quem é Deus para mim quando já não consigo compreender o que Ele está fazendo?
A santidade amadurece nesse lugar.
Deus começa conosco onde estamos, com uma fé ainda misturada aos nossos cálculos, medos, afetos e expectativas, e trabalha dentro da história concreta de cada um. Algumas seguranças ficam pelo caminho. Certas expectativas precisam ser purificadas. Existem promessas cujo alcance somente compreenderemos depois de muitos anos, e outras cujo cumprimento ultrapassará nossa vida. A graça toma a história que temos, com suas feridas, limites, afetos e possibilidades, e faz dela lugar de encontro com Deus.
Por isso a figura de Abraão atravessa toda a Bíblia. Israel o chama de pai. Os profetas recordam a Aliança feita com ele. São Paulo vê nele o pai dos crentes. Jesus fala do Reino como a mesa na qual os homens virão do Oriente e do Ocidente para sentar-se “com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8,11). A liturgia da Igreja continua chamando-o de “nosso pai Abraão”. Sua paternidade ultrapassou a descendência segundo a carne porque aquela existência pessoal alcançada por Deus tornou-se parte de uma obra destinada a atravessar os séculos.
É nesse sentido preciso que continuo considerando possível chamá-lo de primeiro santo da história. A expressão não estabelece uma cronologia absoluta da santidade humana e não retira de Abel, Henoc, Noé ou Melquisedec aquilo que a própria Escritura lhes reconhece. Ela identifica o momento em que, deixando a história primordial de Gênesis 1 a 11 e entrando no horizonte dos patriarcas, encontramos pela primeira vez uma existência acompanhada extensamente como história pessoal de vocação, Aliança e transformação pela ação de Deus.
São João Paulo II afirmou, ao falar de Abraão durante o Grande Jubileu do ano 2000, que “com Abraão teve início a história da salvação”. A frase oferece a medida exata para nossa questão. Depois de contemplar nas primeiras páginas do Gênesis o drama da humanidade, a Escritura começa a mostrar Deus entrando concretamente na história para conduzi-la. E começa por um homem.
Abraão morrerá sem ver a maior parte daquilo que lhe foi prometido. Terá visto Isaac nascer, terá comprado um campo onde sepultar Sara e terá percorrido como estrangeiro a terra que Deus prometera à sua descendência. A bênção destinada a todas as famílias da terra ainda atravessaria séculos até alcançar sua plenitude. Mesmo assim, aquela promessa já havia dado unidade à sua existência, porque sua vida fazia parte de uma obra cujo cumprimento ultrapassava os limites de seus próprios dias.
Aqui encontramos uma dimensão da santidade que a história de Abraão deixa particularmente clara: o santo aceita que sua existência seja tomada por uma obra de Deus maior do que aquilo que conseguirá realizar ou contemplar. A vida cristã adquire outra medida quando compreendemos isso. O valor de uma existência já não depende de quantos resultados conseguimos ver antes de morrer, mas da fidelidade com que ocupamos o lugar que Deus nos confiou dentro de sua obra. Algumas coisas começarão conosco e terminarão em outras mãos. Outras recebemos de quem veio antes e entregaremos ainda incompletas aos que vierem depois. O Reino de Deus atravessa nossas pequenas biografias sem ficar preso aos limites delas.
Foi então que a pergunta do meu sobrinho voltou à minha cabeça. Se ele me perguntasse novamente qual foi o primeiro santo da história, eu continuaria respondendo: Abraão. Mas agora demoraria um pouco mais para explicar por quê.
Abraão foi o primeiro homem que encontramos, dentro do horizonte histórico da narrativa bíblica, cuja vida inteira podemos acompanhar sendo tomada por uma vocação e inserida numa promessa maior do que seus próprios dias. Deus o chamou, e ele partiu. Deus prometeu, e ele entregou sua existência ao caminho aberto por aquela Palavra. Morreu sem ver grande parte do que lhe fora anunciado, mas a promessa continuou depois dele.
Foi preciso a pergunta simples de uma criança de sete anos para que eu percebesse a profundidade da resposta que lhe havia dado quase sem pensar. Continuaria dizendo que Abraão foi o primeiro santo da história. Agora, porém, acrescentaria que sua primazia importa menos pela posição que ocupa numa cronologia e mais pelo que sua vida nos ensina sobre a santidade: deixar que Deus entre em nossa pequena história e a faça pertencer a uma obra maior do que nós, cujo sentido começa a se cumprir em nossos dias, mas cuja plenitude não precisamos viver o bastante para ver.