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SCRIPTUSFÉ - RAZÃO - TRADIÇÃO
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Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Terceira parte

O sono profundo nas Escrituras, a iniciativa divina e a liberdade humana.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

11 min de leitura

O Tardemah e o verdadeiro protagonista

Entre as diferentes experiências ligadas ao sono nas Sagradas Escrituras, uma merece atenção particular porque aparece em momentos de forte densidade teológica e parece carregar, mais do que o sono comum, a ideia de suspensão da iniciativa humana. O termo hebraico tardemah costuma ser traduzido por “sono profundo”, “torpor” ou “profundo adormecimento”, mas nenhuma dessas expressões, isoladamente, transmite por inteiro o papel que ele assume em algumas narrativas. Não se trata simplesmente de alguém que dorme com intensidade, mas de um estado em que a capacidade consciente de interferir no acontecimento se encontra profundamente reduzida e no qual, em determinados textos, essa redução parece fazer parte do próprio significado da cena. São João Paulo II chama atenção precisamente para essa particularidade ao explicar que tardemah não é o termo hebraico comum para sonho e que, em passagens como Gênesis 2,12, Gênesis 15,12 e 1 Samuel 26,12, aparece ligado a acontecimentos extraordinários que se realizam durante ou imediatamente depois desse estado.

Essa observação se torna mais clara quando percebemos que a Escritura não emprega tardemah em qualquer cena de repouso. O termo aparece em contextos nos quais a passividade do personagem parece integrar o próprio significado do episódio, porque o homem não está simplesmente descansando, mas é colocado numa condição em que sua possibilidade de interferência diminui de tal maneira que a origem do acontecimento já não pode ser confundida com sua iniciativa. A narrativa passa a depender de outra ação, de outra vontade e de uma presença que continua operando enquanto aquele que recebe permanece incapaz de dirigir conscientemente o processo. Por isso João Paulo II observa que, no relato de Gênesis 2, o tardemah sublinha justamente a exclusividade da ação divina.

O primeiro grande texto em que essa experiência aparece está no relato da criação da mulher, em Gênesis 2. Antes que ela seja apresentada ao homem, o Senhor faz cair sobre ele um sono profundo, e a sequência merece ser contemplada com atenção porque cada movimento do texto parece retirar de Adão qualquer pretensão de autoria. Ele não escolhe o momento, não participa conscientemente da ação e não acompanha aquilo que Deus realiza. Quando desperta, encontra diante de si alguém que não existia antes e diante de quem reconhece uma proximidade inédita: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23). O reconhecimento acontece depois, quando a obra já está realizada e quando sua consciência volta a acompanhar a história.

É difícil não perceber o peso teológico dessa construção. A mulher não nasce de um projeto do homem nem de uma decisão sua sobre aquilo de que precisava, porque o próprio relato deixa claro que Deus percebe primeiro a solidão de Adão e declara que não é bom que ele esteja só. O homem experimenta a ausência de uma companhia que lhe corresponda, pois nenhum dos animais é capaz de preencher essa necessidade de comunhão, mas não produz a resposta para aquilo que lhe falta. Quando chega o momento em que Deus dá forma àquilo que estava ausente, Adão dorme, e essa retirada de sua iniciativa faz com que a mulher apareça diante dele antes de tudo como dom recebido. João Paulo II vê nesse ponto um elemento decisivo da antropologia de Gênesis: o homem não participa conscientemente da criação da mulher, e essa ausência de participação conserva intacta a iniciativa criadora de Deus.

É nesse sentido que o tardemah adquire um valor maior do que o simples dado fisiológico do sono. Ele ajuda a preservar a gratuidade do acontecimento e impede que a comunhão seja apresentada como produção ou posse. A mulher é recebida antes de ser reconhecida e, quando Adão finalmente fala, não reivindica autoria, mas reconhece uma realidade diante da qual se descobre relacionado. A comunhão aparece, assim, como algo que o precede e que não depende da capacidade humana de produzir o outro segundo sua própria medida.

O mesmo termo retorna em Gênesis 15, numa cena muito diferente e, ao mesmo tempo, profundamente próxima dessa lógica. Abraão já recebeu a promessa, mas continua carregando consigo a tensão entre aquilo que Deus disse e aquilo que seus olhos conseguem ver. Ele ainda não possui a descendência prometida, não controla o futuro e não sabe por quais caminhos a palavra recebida chegará ao cumprimento. Deus o conduz para fora, manda que contemple as estrelas e reafirma aquilo que havia anunciado. Pouco depois, quando a promessa da terra assume a forma de um rito de aliança, o texto diz que um tardemah cai sobre Abraão.

A cena é especialmente significativa porque o rito descrito em Gênesis 15 pertence ao universo antigo das alianças solenes. As vítimas são divididas e aquele que atravessa entre suas partes assume sobre si a gravidade do compromisso, evocando simbolicamente as consequências de uma eventual infidelidade. Em Gênesis 15, porém, quando chega o momento decisivo, Abraão encontra-se tomado pelo “sono profundo” e é o sinal da presença divina, representado pelo forno fumegante e pela tocha de fogo, que passa entre as vítimas… Abraão participa da preparação do rito, mas é Deus quem passa entre as partes e se vincula à promessa.

A força do texto aparece justamente nesse ponto. Abraão ouviu a promessa, acreditou e obedeceu às instruções recebidas, mas não é apresentado como aquele que sustenta a aliança por sua própria capacidade. O sono profundo o coloca diante de uma verdade que atravessará toda a sua caminhada: aquilo que Deus prometeu não depende da força daquele que recebeu a promessa. A resposta de Abraão continuará sendo necessária, sua fé será provada e sua obediência permanecerá central, mas a origem e a consistência da aliança não estão nele. João Paulo II reconhece em Gênesis 15 o mesmo vocábulo usado no relato de Adão e observa que é justamente durante esse torpor que Deus fala e realiza a aliança com Abraão.

Esse paralelismo entre Adão e Abraão merece atenção porque, nos dois casos, o tardemah aparece no momento em que algo decisivo se estabelece sem que o homem consiga reivindicar controle sobre sua origem. Em Gênesis 2, a comunhão é recebida. Em Gênesis 15, a promessa assume a forma solene de aliança. Os acontecimentos são diferentes e não devem ser confundidos, mas ambos deixam o personagem numa posição semelhante diante da ação de Deus: o homem participa da história, mas não é seu princípio absoluto, nem o seu protagonista mais atuante, por mais incrível que isso pareça.

O termo aparece ainda em outros contextos, e esse dado ajuda a impedir que se faça dele um símbolo rígido. Em 1 Samuel 26, por exemplo, um tardemah enviado pelo Senhor cai sobre o acampamento de Saul, permitindo que Davi se aproxime sem ser percebido. Aqui, o sono profundo não está ligado à criação de uma relação nem à celebração de uma aliança, mas a uma ação providencial que altera as condições normais da cena. Também nesse caso, porém, o estado de torpor retira dos personagens adormecidos a possibilidade de controlar o acontecimento, enquanto a história avança por caminhos que eles não conseguem governar naquele momento. João Paulo II inclui precisamente essa passagem entre os textos nos quais tardemah acompanha acontecimentos extraordinários.

Esse dado amplia o sentido do termo sem dissolvê-lo, porque tardemah não significa sempre a mesma coisa nem introduz necessariamente o mesmo tipo de intervenção divina. O que permanece é uma tonalidade particular de incapacidade humana diante de uma ação que se desenvolve para além do controle consciente. A pessoa continua presente dentro da narrativa, mas deixa temporariamente de governá-la, e é precisamente essa presença sem domínio que torna mais perceptível a ação que vem de outro lugar.

É importante, porém, não transformar essa passividade num ideal espiritual. O sono profundo não aparece como convite para que o homem abandone sua responsabilidade ou espere que Deus faça aquilo que lhe cabe realizar. Nos próprios relatos em que tardemah ganha maior peso teológico, a iniciativa divina não elimina a resposta posterior. Adão desperta e reconhece a mulher que lhe é apresentada, Abraão continuará caminhando, esperando, obedecendo e sendo provado, e Davi precisará decidir o que fará quando encontrar Saul entregue em suas mãos. A suspensão da iniciativa acontece num momento particular, mas não substitui a liberdade humana ao longo da história.

Essa relação entre precedência divina e responsabilidade humana aproxima o tema da teologia da graça, desde que não se tente transformar o vocábulo hebraico num conceito teológico posterior. A aproximação é legítima porque a tradição católica descreve a relação entre graça e liberdade segundo uma ordem semelhante: a iniciativa de Deus precede, prepara e suscita a resposta livre do homem, sem anulá-la. O Catecismo afirma justamente que “a preparação do homem para acolher a graça é já obra da graça” e que a iniciativa divina exige depois uma resposta livre e uma verdadeira colaboração humana (cf. CIC 2001-2002).

Santo Tomás de Aquino formula essa relação de maneira particularmente precisa ao tratar da preparação para a graça. O homem responde livremente, mas essa própria possibilidade de voltar-se para Deus pressupõe uma ação divina anterior, pois a vontade é movida por Deus sem deixar de agir como vontade livre. Para Tomás, o movimento da liberdade humana é real, mas a ação de Deus possui prioridade como princípio daquele movimento. A aproximação com o tardemah se torna então mais clara: o texto bíblico não está ainda formulando uma doutrina sistemática da graça, mas coloca diante dos olhos uma ordem que a teologia cristã reconhecerá depois com maior precisão, na qual Deus age primeiro sem transformar o homem em objeto passivo de toda a história.

O tardemah corrige silenciosamente qualquer pretensão de transformar o homem no princípio daquilo que recebe. Adão não produz a comunhão que lhe é apresentada, Abraão não garante por si mesmo o cumprimento da promessa e Davi não controla todas as forças envolvidas na perseguição que sofre. Em cada um desses relatos, a história avança porque uma ação ultrapassa a capacidade humana de domínio, sem que isso dispense o personagem da responsabilidade que surgirá quando voltar a agir conscientemente. Deus, assim, interage com o homem fazendo história com ele conduzindo a humanidade para o encontro decisivo e sem o qual nada que foi criado encontra razão de ser. Nessa interação do homem com Deus, pode-se notar um constante respeito de Deus pela liberdade humana e, ao mesmo tempo, a liberdade de Deus como autor, fundamento e destino de todas as coisas. O que mais me impressiona é que, mesmo sendo o Todo-poderoso, Deus sabe o momento de agir e o momento de deixar agir sem se impor absolutamente. Só assim é possível que haja história.

Essa percepção também ajuda a compreender por que o sono profundo aparece em momentos nos quais alguma coisa está para mudar. Em Gênesis 2, uma relação que antes não existia será estabelecida. Em Gênesis 15, a promessa ganha a forma solene de aliança. Em 1 Samuel 26, uma situação de perigo e violência é interrompida por uma circunstância que Davi não produziu e diante da qual precisará escolher como agir. O tardemah aparece, assim, em pontos de passagem nos quais a história recebe uma direção que não nasce inteiramente daquele que será afetado por ela. É o momento da ação de Deus. Quando somente ele vai agir criando um ponto de inflexão que conduz a história sem obrigar o homem a seguir um script predeterminado.

Sua força teológica, por isso, não está simplesmente na ausência de consciência, mas na maneira como essa ausência expõe a diferença entre receber e produzir. O personagem continua sendo importante e continuará tendo de responder, mas durante aquele instante deixa de ocupar o centro causal daquilo que acontece, de modo que a narrativa o coloca diante de uma realidade anterior à sua decisão e que, justamente por precedê-lo, reclamará depois uma resposta livre e verdadeira.

Quando esse tema é contemplado dentro do conjunto da história da salvação, ele conduz a uma verdade que ultrapassa os episódios concretos e que a tradição cristã expressará com a linguagem da graça. O homem tende a imaginar que sua relação com Deus começa quando decide procurá-lo, compreendê-lo ou obedecê-lo, mas a lógica bíblica insiste em mostrar uma iniciativa anterior… A palavra já foi pronunciada quando o homem começa a responder, o chamado precede a caminhada e a fidelidade divina sustenta aquilo que a liberdade humana será depois chamada a acolher.

O tardemah torna essa precedência quase corporalmente perceptível, porque coloca o homem numa condição em que ele não consegue atribuir a si mesmo a origem do que acontece e, quando volta à consciência, encontra a história já modificada pela iniciativa de Deus. A partir desse momento sua resposta se torna necessária, porque a ação divina não dispensa sua liberdade, mas nunca será possível confundir essa resposta com a origem do dom que a tornou possível.