Escritura e Espiritualidade
Quando o homem dorme - Sexta parte
Nem todo sonho vem de Deus: discernimento, prudência e superstição na interpretação dos sonhos à luz da fé cristã.
Nem todo sonho vem de Deus: discernimento, prudência e superstição
Se a Escritura reconhece que, em determinados momentos da história da salvação, Deus se serviu de sonhos para comunicar uma palavra, orientar uma decisão ou anunciar aquilo que ainda estava por acontecer, surge uma questão inevitável para quem lê esses relatos a partir da própria experiência: como distinguir um sonho ordinário de uma experiência na qual Deus quis comunicar algo? A pergunta é legítima, sobretudo porque os sonhos conseguem tocar regiões profundas da memória, dos afetos e dos medos, permanecendo conosco mesmo depois que despertamos e produzindo, em algumas ocasiões, uma impressão tão intensa que parece difícil tratá-los como acontecimentos indiferentes. A tradição cristã, porém, sempre respondeu a essa questão com grande prudência, não porque negasse a possibilidade de Deus falar por meio de sonhos, mas porque sabia que a interioridade humana é complexa demais para que uma experiência tão subjetiva receba imediatamente o nome de revelação.
Essa prudência já se encontra na própria Escritura. Os mesmos livros que narram sonhos verdadeiros e decisivos também conhecem sonhos enganosos, falsas pretensões proféticas e advertências contra aqueles que transformam experiências noturnas em fonte de autoridade religiosa. Jeremias denuncia profetas que afirmavam ter sonhado e usavam seus sonhos para sustentar palavras que Deus não lhes havia confiado: “Tive um sonho, tive um sonho!” (Jr 23,25). Pouco depois, o Senhor estabelece uma distinção severa entre aquilo que procede dele e aquilo que nasce do coração daquele que fala, mostrando que a simples afirmação de ter recebido uma experiência extraordinária não basta para garantir sua origem divina. O problema, portanto, não começou com a espiritualidade moderna. Desde o interior da própria história bíblica existe a necessidade de distinguir entre aquilo que Deus comunica e aquilo que o homem, consciente ou inconscientemente, atribui a Deus.
O livro do Eclesiástico oferece uma advertência ainda mais direta ao afirmar que “as esperanças vãs e mentirosas são próprias do insensato, e os sonhos dão asas aos imprudentes” (Eclo 34,1). O autor não nega que Deus tenha falado por sonhos, mas adverte contra o desejo de transformar qualquer experiência noturna em orientação segura para a vida. A imagem usada logo depois é expressiva: quem confia indiscriminadamente nos sonhos seria semelhante a alguém que tenta agarrar uma sombra ou perseguir o vento (cf. Eclo 34,2). A crítica não se dirige contra aquilo que Deus livremente faz, mas contra a facilidade com que o homem concede autoridade religiosa àquilo que surgiu dentro de sua própria experiência.
Essa distinção atravessará a tradição cristã e receberá uma formulação especialmente cuidadosa em Santo Tomás de Aquino. Ao perguntar se é lícito recorrer aos sonhos para conhecer acontecimentos futuros, Tomás começa justamente examinando suas possíveis causas e reconhece que muitos sonhos nascem da própria pessoa. Aquilo em que alguém pensou durante o dia, as preocupações que ocuparam sua atenção, os afetos que o marcaram e até certas disposições corporais continuam agindo sobre a imaginação durante o repouso. Um homem preocupado com determinada situação durante horas não deveria se surpreender ao encontrá-la novamente em seus sonhos, assim como alguém tomado por medo, expectativa ou desejo intenso encontra com frequência imagens relacionadas a esses movimentos quando dorme. A existência do sonho, nesse caso, não exige nenhuma explicação sobrenatural. (cf. Suma Teológica, II-II, q. 95, a. 6).
Essa observação de Tomás conserva uma atualidade pastoral importante, porque muitas experiências que inquietam os fiéis encontram uma explicação suficiente na própria dinâmica interior. Um sonho recorrente com determinada pessoa, uma situação ameaçadora que reaparece durante várias noites ou uma imagem associada a alguma decisão importante não precisa ser imediatamente transformada em aviso divino. A repetição torna a experiência psicologicamente relevante, mas não lhe confere por si mesma origem sobrenatural. Quanto mais um assunto ocupa nossa atenção, desperta emoções intensas ou permanece sem solução, mais compreensível se torna que continue presente durante o sono.
Tomás, porém, não encerra a questão nessa dimensão natural. Reconhece que a Escritura apresenta casos em que Deus comunicou algo durante o sonho e cita precisamente Números 12,6, onde o Senhor declara que fala aos profetas também por esse meio. A posição cristã, assim, não consiste em afirmar que todos os sonhos sejam naturais nem em supor que todo sonho intenso seja sobrenatural, mas em conservar aberta a liberdade de Deus sem transformar essa liberdade numa regra controlável pelo homem. O discernimento começa justamente nesse ponto, quando reconhecemos ao mesmo tempo que Deus é livre para falar e que nós não somos livres para atribuir a ele tudo aquilo que se passa em nossa imaginação.
Essa diferença se torna ainda mais importante quando o desejo de compreender um sonho começa a se transformar em busca por sinais, códigos ou correspondências fixas. Nesse momento, já não estamos diante da simples pergunta sobre aquilo que vivemos durante a noite, mas diante de uma tentativa de alcançar uma certeza que Deus não nos concedeu. É aqui que a tradição católica situa o perigo da superstição. O Catecismo define a superstição como um desvio do sentimento religioso, que surge quando atribuímos a determinados atos, objetos ou sinais uma eficácia que eles não possuem por si mesmos. Esse desvio também aparece quando alguém transforma sonhos, coincidências ou acontecimentos fortuitos em mecanismos seguros para conhecer aquilo que Deus quer ou aquilo que acontecerá no futuro.
A questão se torna ainda mais séria quando a pessoa procura nos sonhos uma forma de antecipar esses acontecimentos futuros. O Catecismo reconhece que Deus revelou o futuro a profetas e santos, mas acrescenta imediatamente que a atitude cristã diante daquilo que ainda não aconteceu consiste em entregar-se com confiança à Providência e rejeitar a curiosidade mórbida sobre o futuro. Em seguida, condena as diversas formas de adivinhação justamente porque nelas existe uma tentativa de dominar o tempo, a história e aquilo que permanece escondido ao conhecimento humano. Essa observação oferece um critério importante para nosso tema: mesmo quando a pergunta nasce de uma preocupação religiosa, ela começa a se afastar da fé cristã quando o sonho deixa de ser uma experiência recebida e passa a ser tratado como instrumento para controlar aquilo que ainda não conhecemos. Essa atitude é extremamente nociva e nos move a querer ocupar um lugar que só a Deus pertence.
A diferença entre revelação e superstição não está, assim, na estranheza da experiência, mas na relação que estabelecemos com ela. Quando Deus fala, a iniciativa permanece dele e a pessoa recebe algo que não estava tentando arrancar no que lhe está oculto. Quando o homem começa a buscar métodos para transformar sonhos em previsões, cria tabelas de significados, procura correspondências fixas entre símbolos e acontecimentos ou passa a organizar decisões importantes segundo aquilo que sonhou, a lógica já mudou… Em lugar da confiança, surge a necessidade de domínio, em lugar do discernimento, instala-se uma tentativa de reduzir o mistério a um sistema previsível. Se podemos definir algo prático nesse ponto, seria estabelecer que é seguro presumir a partir das constantes naturais, como leis da natureza e elementos palpáveis e mensuráveis. Mas, quando lidamos com as variáveis, não é possível presumir com facilidade e muito menos controlar. A liberdade está nessa categoria.
Santo Tomás percebe essa diferença com grande precisão quando afirma que não há superstição em acolher aquilo que Deus verdadeiramente comunicou, mas existe superstição quando se atribui ao sonho uma capacidade de conhecer aquilo que sua causa não permite conhecer. Essa formulação é especialmente útil porque desloca a questão do impacto emocional da experiência para sua verdadeira natureza. O fato de um sonho ser intenso, recorrente, detalhado ou profundamente comovente não demonstra que ele veio de Deus. A força com que uma imagem permanece na memória diz algo sobre o efeito produzido em nós, mas não oferece, sozinha, uma resposta segura sobre sua origem.
É justamente nesse ponto que o discernimento cristão exige paciência… A ansiedade tende a perguntar imediatamente: “O que Deus quis me dizer?”. A prudência começa antes, com outra pergunta: “Tenho alguma razão suficiente para afirmar que Deus quis me dizer algo?”. Essa inversão é importante porque impede que a conclusão seja assumida antes mesmo do discernimento. Muitas vezes, a resposta mais fiel será admitir que não sabemos, e essa ignorância não representa falta de fé. Ao contrário, reconhecer os limites do próprio conhecimento preserva a liberdade de Deus e nos protege contra a tentação de colocar seu nome sobre aquilo que nasceu de nós mesmos.
Também não convém imaginar que a autenticidade de uma eventual comunicação divina dependa de conseguirmos compreendê-la imediatamente. Os relatos bíblicos examinados anteriormente mostram justamente o contrário. Há experiências cujo sentido somente se torna claro depois, quando os acontecimentos posteriores permitem perceber uma coerência que antes não estava disponível. Por isso, diante de um sonho que desperta inquietação espiritual, uma das atitudes mais prudentes consiste em não fazer nada precipitado com ele. Guardá-lo na memória, levá-lo à oração e observar com serenidade aquilo que acontece posteriormente costuma ser mais seguro do que construir rapidamente uma explicação ou tomar decisões impulsivas.
Essa atitude encontra um paralelo interessante na própria experiência de Maria, embora os textos evangélicos não estejam falando de sonhos. Lucas afirma em momentos decisivos que ela “guardava os acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19.51). Existe aí uma atitude espiritual que serve ao nosso tema: nem tudo o que toca profundamente o coração precisa receber uma explicação imediata… Algumas experiências precisam primeiro ser conservadas, confrontadas com a Palavra e iluminadas através do tempo antes que possamos compreender sua verdadeira proporção.
Outro critério indispensável nasce da própria natureza da revelação cristã. Nenhuma experiência pessoal tem autoridade para corrigir as Escrituras, introduzir uma doutrina nova ou autorizar alguém a agir contra aquilo que a Igreja reconhece como moralmente verdadeiro. Se uma pessoa afirma ter recebido em sonho uma autorização para abandonar um dever grave, cometer uma injustiça, alimentar ressentimento ou tratar outra pessoa de modo contrário à caridade, não há razão para continuar procurando sinais que confirmem a experiência. Deus não contradiz a verdade que já revelou. Não existe discernimento a ser alcançado quando a dúvida se refere a pecar… se há matéria de pecado, então já está discernido: não fazer! Só é possível discernimento entre duas realidades boas, nunca entre uma boa e outra pecaminosa.
Essa mesma prudência vale para decisões que envolvem outras pessoas. Um sonho nunca concede ao sonhador direito sobre a liberdade alheia. Alguém sonhar repetidamente com uma determinada pessoa não significa que Deus tenha revelado, por exemplo, que os dois devam se casar, que exista algum vínculo espiritual oculto entre eles ou que o outro tenha obrigação de reconhecer naquela experiência uma mensagem divina. O conteúdo pertence primeiro à experiência de quem sonhou e deve ser discernido dentro dessa condição. Quando uma convicção subjetiva começa a impor deveres espirituais sobre terceiros, a cautela precisa crescer ainda mais.
O discernimento se torna mais seguro quando a experiência é colocada dentro do conjunto da vida cristã. A Palavra de Deus, a oração, os sacramentos, a razão, a realidade objetiva e, quando necessário, o acompanhamento espiritual, ajudam a impedir que uma única experiência receba um peso desproporcional. Um sonho que parece significativo não precisa ser desprezado, mas também não deve ocupar sozinho o lugar que pertence ao conjunto dos meios pelos quais a fé cristã orienta a consciência.
Nesse sentido, procurar um sacerdote ou diretor espiritual não significa pedir que ele decifre o sonho. Não existe no ministério sacerdotal um carisma automático de interpretação das experiências noturnas, e seria irresponsável apresentar como palavra de Deus aquilo que não se tem condições de reconhecer como tal. O acompanhamento espiritual serve antes para ajudar a pessoa a olhar com serenidade para aquilo que viveu, examinar o contexto, reconhecer os movimentos interiores associados ao sonho e verificar se alguma decisão está sendo tomada sobre uma base insegura.
Depois de tudo isso, a resposta pastoral diante de muitos sonhos continua sendo humilde: não sabemos… Essa resposta incomoda porque gostaríamos de possuir critérios capazes de transformar cada experiência em certeza, mas ela protege algo essencial da fé cristã. Deus não precisa deixar de ser livre para que nós nos sintamos seguros, e a vida espiritual não depende da capacidade de explicar cada acontecimento extraordinário que nos toca, mas de aprender a confiar de verdade em Deus.
Quando um sonho vier acompanhado de uma comunicação verdadeira de Deus, sua autenticidade não precisará ser sustentada por superstição, ansiedade ou manipulação de símbolos. A providência saberá conduzir aquilo que começou, a verdade permanecerá coerente com a revelação recebida e os frutos aparecerão dentro de uma vida que se aproxima de Deus. Quando nada disso puder ser reconhecido com segurança, o cristão continua tendo diante de si um caminho suficientemente claro: rezar, cumprir seus deveres, viver os sacramentos, permanecer fiel ao Evangelho e deixar nas mãos de Deus aquilo que ainda não compreende.
A prudência, nesse campo, não empobrece a experiência espiritual, mas impede que nossa necessidade de respostas ocupe o lugar da fé. A Escritura nos ensina que Deus falou em sonhos, mas também nos ensina que o homem é capaz de sonhar a partir de si mesmo e até de atribuir a Deus palavras que não recebeu. Entre esses dois extremos nasce o discernimento cristão, que não despreza aquilo que acontece na vida interior, mas também não se apressa em chamá-lo de revelação.