Pular para conteúdo
SCRIPTUSFÉ - RAZÃO - TRADIÇÃO
← Voltar

Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Sétima parte

Compreensão, obediência e responsabilidade nas experiências de José do Egito e São José.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

9 min de leitura

Sonhos simbólicos e sonhos diretos

Depois de reconhecer que nem todo sonho vem de Deus e que nem a Escritura, nem a Tradição não oferecem qualquer sistema automático para decifrar experiências noturnas, é possível dar um passo adiante e observar uma diferença importante entre os próprios sonhos que a Bíblia apresenta como ligados à revelação. Alguns chegam por meio de imagens que não entregam imediatamente seu sentido, enquanto outros trazem uma palavra tão clara que a dificuldade já não está em compreender o que foi dito, mas em decidir se haverá coragem para obedecer. Essa diferença ajuda a perceber que o sonho, dentro da linguagem bíblica, não constitui um gênero único e uniforme. A forma da experiência varia de acordo com aquilo que Deus quer comunicar e com o lugar que aquela comunicação ocupa dentro da história da salvação.

Os sonhos simbólicos são os que mais facilmente chamam nossa atenção porque conservam um certo mistério mesmo depois que o personagem desperta. Neles aparecem imagens que parecem possuir relação com acontecimentos reais, mas essa relação ainda não está disponível de maneira imediata. Os feixes de José, o sol, a lua e as estrelas, as vacas gordas e magras do faraó, as espigas cheias e ressequidas, a grande árvore vista por Nabucodonosor ou as visões de Daniel pertencem, de modos distintos, a esse campo em que a experiência é recebida antes que seu alcance se torne plenamente evidente.

Esse modo de revelação possui uma característica que não deveria passar despercebida: o símbolo não elimina a verdade, mas impede que ela seja reduzida a uma simples informação. Quando José sonha com os feixes de seus irmãos inclinando-se diante do seu, ele recebe algo verdadeiro sobre o futuro, mas ainda não conhece o caminho pelo qual aquilo chegará ao cumprimento. Entre o sonho e a realização haverá rejeição, escravidão, prisão, ascensão no Egito e reencontro com a família. O conteúdo do sonho só ganha toda a sua extensão quando esses acontecimentos passam a se relacionar entre si.

Esse intervalo é importante porque impede que a revelação seja confundida com previsão detalhada do futuro. O sonho aponta para algo real, mas não entrega necessariamente um mapa completo. A pessoa recebe uma imagem cujo alcance ainda não domina e precisa reconhecer que a verdade pode ter sido comunicada sem que todas as suas consequências estejam disponíveis desde o início. É como se o sonho, utilizado por Deus por instrumento de revelação, profetizasse o início da realização de uma realidade maior, mais profunda e na qual Deus tende a realizar um feito decisivo. Como se o sonho do homem fosse o ponto de inflexão na realização do “sonho de Deus”.

Algo semelhante acontece com o faraó. Ele recebe duas imagens diferentes, as vacas e as espigas, mas ambas apontam para uma mesma realidade que ele próprio não consegue alcançar. O fato de o sonho ter sido repetido reforça sua importância, e José afirma que aquilo foi estabelecido por Deus e estava prestes a acontecer (Gn 41,32). Ainda assim, sem a explicação recebida por José, o faraó possui as imagens, mas não consegue transformá-las em direção concreta para seu reino.

Nesse tipo de relato, a mediação assume um papel importante. Quem sonha e quem compreende nem sempre são a mesma pessoa. O copeiro e o padeiro recebem seus sonhos, mas José os esclarece. O faraó recebe o sonho, mas novamente precisa de José. Em outra época, Nabucodonosor sonha, mas procura quem consiga compreender aquilo que o inquieta. O próprio Daniel recebe visões cujo alcance nem sempre se torna imediatamente claro para ele. A revelação, assim, não é apresentada como propriedade privada daquele que teve a experiência. Ela permanece inserida numa história maior, na qual Deus também dispõe os meios pelos quais aquilo que foi recebido alcançará sua finalidade.

Esse dado oferece uma correção importante para qualquer espiritualidade excessivamente individualista. A experiência interior não torna automaticamente a pessoa autossuficiente no discernimento. A Escritura conhece situações em que aquilo que alguém recebeu precisa ser colocado diante de outro, confrontado, explicado ou simplesmente conservado com prudência. O fato de a experiência ter acontecido no interior de uma pessoa não significa que ela possua, por isso, plena capacidade para julgá-la.

Ao lado desses sonhos simbólicos, porém, encontramos experiências muito diferentes, nas quais a comunicação não chega escondida sob imagens que precisam ser esclarecidas. A palavra vem de maneira direta, frequentemente na forma de uma ordem ou advertência, e o personagem desperta já sabendo aquilo que lhe foi pedido. Os sonhos de São José, no Evangelho de Mateus, oferecem o exemplo mais claro dessa segunda forma.

Quando José descobre que Maria está grávida e decide deixá-la secretamente, o anjo do Senhor lhe aparece em sonho e diz de modo explícito: “não temas receber Maria como esposa, porque aquilo que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (Mt 1,20-21). Não há símbolo que precise ser decifrado, nem imagem cujo significado permaneça escondido. José recebe uma explicação sobre aquilo que o perturbava e uma direção concreta para sua conduta. O Evangelho conduz imediatamente da palavra recebida para a resposta: “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor lhe havia mandado” (Mt 1,24).

O mesmo movimento volta a aparecer depois da visita dos Magos. O anjo aparece novamente em sonho e ordena: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise” (Mt 2,13). Mais uma vez, o conteúdo não precisa ser reconstruído. O perigo é apresentado, a ação é indicada e a responsabilidade de José começa assim que desperta. Posteriormente, outra comunicação em sonho indicará o retorno e, depois, uma nova advertência o conduzirá para a região da Galileia.

Essa diferença entre os sonhos simbólicos do Antigo Testamento e os sonhos diretos de São José não significa que o Novo Testamento tenha abandonado a linguagem simbólica nem que o Antigo Testamento desconheça mensagens claras. O que ela mostra é que Deus não se prende a uma única forma de comunicação. Em alguns momentos, a mensagem se apresenta por uma imagem cujo alcance precisa ser reconhecido no curso dos acontecimentos. Em outros, chega como uma palavra que pede ação concreta.

Nos sonhos simbólicos, o personagem precisa lidar com uma realidade que ainda não domina inteiramente. Nos sonhos diretos, a ênfase se desloca para a obediência, porque o essencial já foi comunicado. A dificuldade deixa de estar no sentido da mensagem e passa a estar na disposição de acolher suas consequências.

Essa diferença aparece com especial beleza na figura de São José. O Evangelho não registra uma única palavra pronunciada por ele, mas conserva repetidamente aquilo que faz depois de receber uma orientação. A comunicação chega durante o sono, mas sua santidade se revela quando desperta. José não permanece contemplando a experiência, não procura prolongá-la e não transforma o sonho em objeto de curiosidade religiosa. Levanta-se e age. A verdade recebida durante a noite entra imediatamente no tecido concreto de sua vida.

O Papa Francisco chamou atenção para esse aspecto ao apresentar São José como “homem que sonha”, mas sem reduzir essa característica a uma disposição passiva. O sonho, em José, está ligado ao discernimento e à decisão. Ele acolhe aquilo que recebe e permite que a palavra altere seus próprios planos, justamente porque sua interioridade permanece aberta a uma vontade que não coincide necessariamente com aquilo que havia decidido anteriormente.

Os sonhos simbólicos ensinam algo diferente, mas complementar. Neles, o conteúdo recebido não pode ser transformado imediatamente em plano de ação, porque parte de seu alcance ainda pertence ao desenvolvimento da própria história. José do Egito não poderia, aos dezessete anos, executar algum projeto capaz de realizar conscientemente os sonhos que teve. Sua tarefa não era fabricar o cumprimento, mas permanecer fiel dentro de circunstâncias que ele não controlava.

Essa distinção ajuda também a vida espiritual de hoje. Existem momentos em que uma pessoa percebe com clareza aquilo que precisa fazer, porque o dever moral, a Palavra de Deus, a responsabilidade assumida ou as circunstâncias não deixam grande espaço para dúvida. Nesses casos, continuar procurando sinais pode se transformar numa maneira de adiar a decisão. Em outros momentos, a realidade permanece obscura e não há elementos suficientes para chegar a uma conclusão segura. A atitude madura será reconhecer os limites da própria compreensão, evitar decisões precipitadas e continuar vivendo com fidelidade aquilo que já está claro.

A Escritura, portanto, não apresenta uma única relação entre revelação e compreensão. Há mensagens cujo sentido chega quase junto com elas e outras cujo alcance somente aparece dentro do desenrolar da história. Em ambos os casos, porém, uma verdade permanece: Deus não depende da capacidade humana de controlar o processo. Quando a mensagem vem envolvida em símbolos, o homem precisa reconhecer seus limites. Quando a palavra chega de maneira direta, precisa aceitar que sua liberdade foi convocada.

Os dois caminhos exigem humildade, embora de maneiras diferentes. Um exige a humildade de admitir que ainda não se possui tudo aquilo que seria necessário para compreender plenamente. O outro exige a humildade de aceitar que, quando a palavra já está clara, a resposta não pode ser indefinidamente adiada.

Tal distinção também ajuda a compreender por que não devemos desejar uma forma específica de experiência espiritual… Não há razão para considerar o sonho simbólico mais profundo por ser misterioso nem o sonho direto mais perfeito por ser claro. A importância da experiência está naquilo que Deus realiza através dela e na resposta a que conduz. A Escritura não valoriza o extraordinário por sua estranheza, mas pelo lugar que ocupa dentro da história da salvação.

Ao contemplar esses dois modos de sonho, aparece uma relação importante entre clareza e responsabilidade. Quando o sentido ainda não está disponível, o homem precisa reconhecer sua limitação e evitar forçar uma conclusão. Quando a mensagem se torna clara, a responsabilidade cresce porque já não existe a mesma margem para permanecer indeciso. Parte da maturidade espiritual consiste justamente em distinguir essas duas situações.

Os sonhos simbólicos lembram que nem toda verdade chega inteiramente explicada. Os sonhos diretos lembram que nem toda palavra de Deus permite permanecer indefinidamente buscando novas confirmações. Entre José do Egito e São José aparece uma mesma disposição interior: ambos recebem algo que não nasceu de seus próprios planos e permitem que a palavra recebida determine o modo como continuarão sua história.

Continua.