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SCRIPTUSFÉ - RAZÃO - TRADIÇÃO
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Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Segunda parte

As diferenças entre essas experiências e a prudência no discernimento.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

12 min de leitura

Sono, sonho, visão e torpor na linguagem bíblica

Quando começamos a observar com mais atenção os relatos bíblicos ligados ao sono, uma dificuldade aparece quase imediatamente, porque aquilo que à primeira vista parece pertencer ao mesmo fenômeno se mostra, pouco a pouco, bastante diverso. A Escritura fala de pessoas que dormem, de pessoas que sonham, de homens e mulheres alcançados por visões durante a noite, de estados de torpor profundo e de experiências proféticas que acontecem em momentos nos quais a consciência ordinária já não funciona do mesmo modo. Se reunirmos tudo sob uma única palavra, perdemos justamente aquilo que o texto tem de mais interessante, porque o sentido não está somente no fato de a experiência acontecer “durante a noite”, mas na forma concreta pela qual Deus se aproxima e na condição em que o homem se encontra quando é alcançado.

O sono comum é o ponto mais simples de partida. A Bíblia conhece o repouso humano como conhece a fome, o cansaço, a sede e o medo, e por isso não há razão para atribuir a toda noite ou a todo adormecer um significado religioso especial. Em muitos relatos, alguém dorme porque o corpo chegou ao limite, porque a jornada foi longa, porque a tristeza venceu a vigilância ou porque a pessoa já não consegue permanecer atenta. A própria Escritura mostra que o mesmo gesto de dormir acompanha situações espiritualmente diferentes, desde a fraqueza dos discípulos no Getsêmani até o repouso de quem dorme sem que nada extraordinário esteja acontecendo, de modo que o sono, por si mesmo, não constitui sinal de revelação nem deve receber automaticamente um significado espiritual.

A situação começa a mudar quando o sono deixa de ser somente um detalhe da narrativa e passa a participar daquilo que o texto quer dizer. Em certos episódios, o personagem adormece justamente antes de uma ação decisiva de Deus, e o fato de ele estar privado da plena capacidade de intervir parece afastá-lo do centro da cena, deixando mais evidente que a origem do acontecimento não está nele. Nesses casos, o sono deixa de ser simples descanso e assume também uma condição de receptividade e, em algumas passagens, de quase completa passividade, porque o homem continua presente, mas já não governa aquilo que se realiza diante dele.

É nesse horizonte que ganha importância o chamado sono profundo, frequentemente ligado ao termo hebraico tardemah. São João Paulo II chamou atenção precisamente para a diferença entre esse estado e o sonho comum ao comentar Gênesis 2,21, lembrando que tardemah indica um “sono profundo” no qual o homem permanece sem conhecimento ou sonhos e observando que o Antigo Testamento emprega o termo em contextos nos quais acontecimentos extraordinários estão prestes a ocorrer. No relato da criação da mulher, segundo o Papa, esse torpor sublinha “a exclusividade da ação de Deus”, já que o homem não participa conscientemente daquilo que se realiza. O mesmo termo volta a aparecer em Gênesis 15,12, no momento em que Deus está prestes a confirmar sua aliança com Abraão, o que levou São João Paulo II a perceber, nas duas passagens, uma especial ação divina com consequências para toda a história da salvação. Assim, tardemah não descreve simplesmente alguém que dorme profundamente, mas um estado no qual a possibilidade de intervenção humana se encontra ainda mais reduzida e no qual a própria narrativa conduz o leitor a perceber que o acontecimento decisivo não nasce da ação consciente daquele que o recebe.

O sonho introduz outra forma de experiência, porque nele o personagem dorme, mas algo lhe é comunicado por meio de palavras, imagens, símbolos ou cenas que permanecem acessíveis à memória e, em muitos casos, exigem interpretação. O homem não está plenamente desperto, mas também não está inteiramente ausente da experiência, pois vê, escuta, percebe, teme e conserva aquilo que recebeu quando desperta. A condição é distinta do torpor profundo, justamente porque existe algum tipo de experiência interior que atravessa o sono e permanece depois dele. Papa Francisco, ao refletir sobre os sonhos de São José, recordou que a Bíblia conhece o sonho como uma das formas pelas quais Deus se manifesta e fala ao homem, ao mesmo tempo em que insistiu que a vida interior abriga muitas outras vozes e, por isso, exige discernimento.

Nem todo sonho, porém, é imediatamente claro. Em alguns relatos, a mensagem chega de forma direta e conduz a uma resposta praticamente imediata. Em outros, seu conteúdo aparece por meio de imagens cujo significado permanece escondido até que alguém seja capaz de interpretá-las. A diferença entre receber e compreender torna-se, então, parte da própria narrativa, porque a experiência não se esgota no momento em que acontece. O personagem pode ter visto algo verdadeiro e ainda não saber o que aquilo significa, como ocorre nas histórias ligadas a José e Daniel, nas quais a interpretação não aparece como simples habilidade humana, mas como conhecimento recebido de Deus. Essa distinção preserva um aspecto central da revelação bíblica: receber uma imagem não significa possuir automaticamente sua interpretação.

Essa maneira de narrar impede que o sonho seja reduzido a uma espécie de linguagem secreta disponível a quem conhecesse regras fixas de decodificação. A Escritura não oferece uma gramática universal dos sonhos e não ensina que determinadas imagens tragam sempre o mesmo significado, porque o sentido depende do contexto, da finalidade da revelação e da ação de Deus naquele momento concreto da história. São Tomás de Aquino ajuda a compreender essa prudência ao lembrar que os sonhos possuem causas diversas e que muitos deles nascem dos próprios pensamentos, afetos ou disposições corporais do indivíduo, ao passo que outros, em circunstâncias específicas, podem estar ligados a uma comunicação divina. Por isso, a presença de sonhos reveladores na Escritura não autoriza a transformar toda experiência onírica em mensagem sobrenatural.

Também por isso convém distinguir cuidadosamente o sonho da visão noturna. A noite pode envolver uma experiência profética sem que o personagem esteja dormindo, e chamar tudo de sonho apagaria uma diferença que o próprio texto preserva. Em determinadas passagens, a pessoa vê ou escuta algo “durante a noite” estando consciente, de modo que o cenário noturno envolve o acontecimento sem constituir necessariamente a condição da revelação. A noite, nesses casos, funciona como circunstância temporal da experiência, enquanto no sonho o próprio estado de sono integra o modo pelo qual a mensagem é recebida.

Essa distinção ajuda a perceber que a Escritura trabalha com uma variedade de modos pelos quais o homem é alcançado por uma palavra que não nasce dele. Há situações de sono profundo, nas quais a intervenção consciente praticamente desaparece, sonhos em que imagens e palavras alcançam a interioridade, visões noturnas ocorridas durante a vigília e experiências proféticas cuja forma exige outras categorias. A própria tradição bíblica já reconhece essa variedade quando, em Números 12,6, Deus declara que se dá a conhecer ao profeta por visão e fala com ele em sonhos, mostrando que as duas formas são próximas, mas não idênticas. Santo Tomás retomará essa diversidade ao tratar da profecia e de seus diferentes modos, reconhecendo que a revelação pode alcançar a imaginação e o intelecto em condições distintas, inclusive durante o sono.

A tradição cristã percebeu cedo que essas diferenças precisavam ser levadas a sério. Santo Agostinho dedicou atenção aos diversos modos pelos quais imagens chegam à alma e advertiu contra a identificação imediata entre aquilo que aparece num sonho e uma realidade objetiva exterior ao sonhador. Ao tratar de aparições em sonhos, observa inclusive que alguém pode aparecer na experiência de outra pessoa sem ter qualquer consciência disso, mostrando como a imagem onírica exige cautela antes de receber uma interpretação objetiva. Santo Tomás desenvolverá essa reflexão ao distinguir aquilo que nasce da própria vida psíquica, aquilo que tem causas corporais e aquilo que, em casos específicos, procede de uma comunicação espiritual. O interesse dessa tradição para o nosso tema está justamente em mostrar que Deus não fala ao homem anulando sua humanidade, mas alcançando-o através de faculdades que continuam sendo humanas, com sua imaginação, sua memória, sua inteligência e sua liberdade.

Esse ponto é decisivo para evitar uma leitura segundo a qual a experiência religiosa seria tanto mais pura quanto menos consciente estivesse o homem, como ocorre em alguns rituais pagãos ocasionados por consumo de substâncias entorpecentes alucinógenas. A Escritura não conduz nessa direção, porque o sono marca, em algumas situações, o momento da recepção, mas aquilo que foi recebido precisará depois entrar na vida desperta, passar pelo discernimento e chegar à decisão. Papa Francisco percebeu esse movimento com especial clareza nos sonhos de São José, porque o Evangelho não se limita a dizer que ele recebeu uma palavra durante o sono, mas registra aquilo que aconteceu depois: “Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado” (Mt 1,24). A revelação recebida durante a noite desemboca, assim, numa obediência consciente.

É precisamente nesse movimento que a diferença entre sonho e revelação começa a se tornar mais clara. O sonho, enquanto fenômeno humano, nasce também de medos, preocupações, desejos, memórias, impressões do dia e inúmeros movimentos interiores que pertencem à vida ordinária. O Papa recorda essa diversidade ao afirmar que dentro de nós não se encontra somente a voz de Deus, mas também as vozes dos medos, das experiências passadas e das esperanças, razão pela qual é necessário aprender a discernir. Santo Tomás já havia oferecido uma análise semelhante ao explicar que aquilo que ocupa o pensamento e os afetos durante a vigília frequentemente retorna à imaginação enquanto dormimos. A revelação, quando acontece por meio de um sonho, distingue-se justamente porque sua origem e sua finalidade ultrapassam esse dinamismo ordinário da vida interior e se inserem na iniciativa de Deus dentro da história da salvação.

Essa distinção também explica por que a Escritura permanece crítica diante das práticas de adivinhação. Na adivinhação, o homem procura obter acesso ao oculto, tenta antecipar o futuro por meios que lhe garantiriam um conhecimento indisponível pelos caminhos ordinários e acaba transformando sinais ou experiências em instrumentos de domínio. Santo Tomás trata diretamente da adivinhação pelos sonhos e estabelece uma distinção importante: não existe superstição quando um sonho procede de verdadeira revelação divina e é acolhido segundo aquilo que Deus comunica, mas existe abuso quando o homem pretende retirar dos sonhos um conhecimento que sua verdadeira causa não oferece. Nos sonhos reveladores da Bíblia, o movimento parte de Deus, que se comunica segundo sua liberdade, enquanto na prática divinatória o homem procura forçar o acesso ao que permanece oculto.

Quando se percebe essa ordem, o sonho deixa de ocupar o centro da questão, porque aquilo que importa já não é o caráter extraordinário da experiência, mas a iniciativa divina e a maneira como ela alcança uma pessoa concreta. Em determinados momentos, isso acontece por uma palavra direta, em outros por imagens, por uma visão noturna ou por um torpor profundo no qual a própria impossibilidade de agir integra o significado do relato. Cada forma ocupa seu lugar dentro da história e nenhuma delas autoriza a transformar a vida espiritual numa procura contínua por experiências extraordinárias.

A prudência da tradição católica diante dos sonhos nasce dessa consciência. Reconhecer que Deus falou por meio de sonhos em momentos decisivos da história da salvação não significa afirmar que todo sonho tenha valor espiritual, do mesmo modo que reconhecer a origem psicológica ou corporal de inúmeros sonhos não exige negar aqueles que a própria Escritura apresenta como reveladores. O Papa sintetiza bem essa tensão ao reconhecer que Deus se manifesta e fala no espaço interior, mas imediatamente recorda que ali também se fazem ouvir outras vozes que precisam ser distinguidas. O caminho mais fiel ao texto bíblico consiste, assim, em conservar sua própria sobriedade, reconhecendo quando o sono é somente sono, quando o sonho nasce da vida interior e quando a narrativa apresenta uma intervenção que ultrapassa a experiência ordinária.

É a partir dessas diferenças que os grandes episódios bíblicos começam a ganhar maior profundidade. O sono de Adão não é um sonho, e São João Paulo II insiste precisamente nessa distinção ao separar tardemah do termo hebraico empregado para sonho. O torpor de Abraão também possui uma estrutura própria, diferente da experiência de Jacó em Betel, assim como as visões de Daniel não devem ser tratadas da mesma maneira que as ordens recebidas por São José no Evangelho de Mateus. A riqueza aparece quando deixamos cada narrativa falar com sua própria linguagem e percebemos que a unidade do tema não depende de reduzir experiências diferentes a uma explicação única.

Ainda assim, apesar de todas essas diferenças, algo permanece comum quando tais experiências pertencem de fato ao campo da revelação: o homem não controla a origem daquilo que recebe, não estabelece o momento, não determina o conteúdo e não domina inteiramente o modo pelo qual será alcançado. É justamente aí que sono, sonho, visão e torpor voltam a se aproximar, porque todos eles, segundo circunstâncias próprias, acabam colocando diante do leitor uma mesma precedência, a de uma palavra que chega antes de ter sido procurada e de uma iniciativa que não nasceu daquele que a recebeu.

A revelação, assim, não começa na capacidade humana de abrir caminho até o mistério, mas na liberdade de Deus que se aproxima e chama. O homem recebe de modos diferentes, compreende em graus diferentes e responde segundo sua liberdade, mas permanece uma ordem que atravessa essas experiências: algo o alcança antes que ele possa reivindicá-lo como obra própria e, quando volta à plena consciência, encontra diante de si uma palavra, uma missão ou uma realidade que agora deverá acolher, discernir e transformar em resposta.

Continua.