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Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Quinta parte

O sonho na Bíblia: a mensagem e a compreensão, da experiência de José e Daniel à prudência no discernimento dos sonhos.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

10 min de leitura

O sonho na Bíblia: a mensagem e a compreensão

Depois de distinguir o sono comum, o torpor profundo, as diferentes formas de experiência noturna presentes nas Sagradas Escrituras e um pouco sobre o exercício espiritual do discernimento, chegamos a uma realidade que atravessa numerosos momentos da história da salvação e que, ao mesmo tempo, exige atenção ainda maior: o sonho. A Bíblia não o apresenta como fenômeno estranho à experiência humana e tampouco o transforma, por si mesmo, em sinal de revelação. Homens e mulheres sonham porque fazem parte da condição humana, carregam preocupações, desejos, lembranças e medos que continuam de algum modo ativos durante o repouso. Ao lado dessa experiência ordinária, porém, a Escritura conhece situações nas quais o sonho se torna espaço de uma comunicação divina, e é justamente aí que surge uma característica importante para nosso estudo: muitas vezes, aquilo que é recebido chega antes de ser compreendido.

Essa diferença merece permanecer diante dos nossos olhos porque impede que o sonho bíblico seja tratado como uma mensagem pronta, semelhante a uma frase cujo significado bastaria ler para conhecer imediatamente a vontade de Deus. Em algumas narrativas, a comunicação aparece de maneira bastante direta, sobretudo quando uma ordem é dada e o personagem compreende aquilo que deverá fazer ao despertar. Em outras, porém, a experiência é formada por imagens estranhas, símbolos, números, animais, objetos ou acontecimentos cuja relação com a realidade ainda não está clara para quem sonhou. O sonho permanece na memória e produz inquietação ou espanto, mas seu sentido só aparece aos poucos, dentro da própria história.

Essa dinâmica se mostra com particular clareza no ciclo de José, no livro do Gênesis. Quando ainda jovem, José sonha com os feixes que se inclinam diante do seu feixe e, depois, sonha com o sol, a lua e onze estrelas que também se inclinam diante dele (Gn 37,5-10). As imagens são fortes o suficiente para provocar uma reação imediata de seus irmãos e de seu pai, mas o desenvolvimento da narrativa deixa claro que ninguém, naquele momento, conhece a extensão daquilo que foi anunciado. Entre o sonho e seu cumprimento haverá rejeição, escravidão, injustiça, prisão, ascensão e reencontro. Somente quando a história tiver percorrido caminhos que José jamais conseguiria antecipar aquelas imagens começarão a mostrar com maior clareza o que carregavam desde o início.

Esse aspecto é importante porque nos obriga a resistir à ansiedade de compreender imediatamente tudo aquilo que se recebe. O homem nem sempre desperta sabendo exatamente o que Deus está fazendo. Em certos casos, conserva uma palavra ou uma imagem cuja verdade somente será reconhecida quando os acontecimentos posteriores oferecerem uma chave que antes não existia. O tempo passa, então, a fazer parte da própria compreensão, porque existem experiências cujo alcance não se entrega inteiro no instante em que acontecem.

A mesma característica aparece quando José, já no Egito, encontra o copeiro e o padeiro do faraó perturbados por seus sonhos. Antes de qualquer explicação, ele pronuncia uma frase que estabelece um princípio importante para toda a narrativa: “Porventura não pertencem a Deus as interpretações?” (Gn 40,8). O valor dessa afirmação está em retirar de José qualquer pretensão de domínio. Ele não se apresenta como alguém que possui uma chave secreta para decifrar o oculto, mas como alguém consciente de que o sentido último da experiência não lhe pertence como posse.

Essa convicção se torna ainda mais clara diante do faraó. Depois de sonhar com as sete vacas gordas devoradas pelas sete vacas magras e com as sete espigas cheias consumidas pelas espigas mirradas, o rei convoca os sábios do Egito, mas ninguém consegue oferecer uma resposta satisfatória. Quando José finalmente é conduzido à sua presença, o faraó lhe diz ter ouvido que ele é capaz de compreender um sonho e explicá-lo. A resposta de José é reveladora: “Não sou eu, mas Deus dará ao faraó uma resposta favorável” (Gn 41,16). Que coisa impressionante: o homem que recebeu o dom recusa transformar-se no centro daquilo que faz.

É justamente aí que o sonho bíblico se afasta de qualquer sistema automático de decodificação. Se existisse uma técnica capaz de garantir o significado, bastaria conhecê-la. A narrativa, porém, insiste em outra direção. O mesmo símbolo não carrega necessariamente o mesmo sentido em toda parte, e nenhuma imagem possui valor independente do contexto no qual aparece. Vacas, espigas, estrelas, árvores ou estátuas não formam um vocabulário universal que permita reconstruir mecanicamente uma mensagem divina.

Santo Tomás de Aquino ajuda a compreender essa realidade quando trata da profecia e das experiências ocorridas durante o sono. Ele reconhece que o sonho pertence ao campo da imaginação e que, durante o repouso, o homem se encontra mais afastado das impressões dos sentidos externos, razão pela qual certas imagens interiores aparecem com maior força. Ao mesmo tempo, observa que o juízo racional possui maior perfeição durante a vigília do que durante o sono, o que ajuda a entender por que uma imagem recebida enquanto se dorme não traz necessariamente consigo sua plena compreensão. A experiência e o juízo sobre a experiência pertencem a momentos que não precisam coincidir. (cf. Suma Teológica, II-II, q. 172, a. 1).

A distinção de Tomás ajuda também a perceber por que a tradição cristã nunca tratou todo sonho como revelação. O fato de alguém receber imagens durante o sono pertence à experiência humana comum, e essas imagens surgem por causas diversas. Como já vimos, algumas estão relacionadas ao corpo, outras às preocupações e afetos da pessoa, e a Escritura reconhece ainda situações excepcionais nas quais Deus se serve do sonho para comunicar algo. O ponto decisivo não está na simples existência da experiência, mas em sua origem, em seu conteúdo e no lugar que ela ocupa dentro da ação de Deus.

O livro de Daniel leva essa questão mais longe. Quando Nabucodonosor exige que seus sábios não só expliquem o sonho, mas revelem aquilo que ele havia sonhado, Daniel deixa claro que nenhum sábio, mago ou adivinho possui por si mesmo acesso àquilo que o rei deseja conhecer. “Há, porém, um Deus no céu que revela os mistérios” (Dn 2,28). A frase se aproxima profundamente daquilo que José havia afirmado séculos antes. Em ambos os casos, aquilo que está oculto não se torna propriedade de uma técnica humana.

Essa repetição dentro da própria Escritura é significativa porque mostra que o problema não está na existência de pessoas capazes de compreender sonhos, mas na pretensão de transformar essa capacidade em poder autônomo. José explica. Daniel explica. Ambos reconhecem, porém, que aquilo que compreendem lhes foi dado. A compreensão permanece subordinada a Deus e, justamente por isso, não se converte em método disponível para qualquer sonho futuro.

Há ainda uma diferença importante entre esses sonhos simbólicos e aqueles em que a mensagem chega de maneira direta. Nos sonhos de São José narrados por Mateus, por exemplo, não encontramos uma sequência de imagens cujo significado precise ser reconstruído. O anjo fala, explica uma situação e indica aquilo que José deverá fazer. Quando ele desperta, não procura alguém que lhe diga o que ocorreu, porque a própria comunicação já contém sua orientação. A Bíblia conhece o sonho como um dos meios pelos quais Deus pode se manifestar, mas dentro da vida interior existem muitas vozes, entre elas nossos medos, nossas experiências anteriores e nossas expectativas, o que torna necessário discernir aquilo que verdadeiramente vem de Deus.

Essa diferença entre os sonhos de José do Egito e os de São José ajuda a perceber que a categoria “sonho revelador” abriga experiências bastante diversas. Em algumas, o conteúdo aparece envolvido em imagens cujo alcance só se torna claro com o tempo. Em outras, a palavra é direta e a questão principal deixa de ser “compreender” para tornar-se “obedecer”. Em ambos os casos, porém, permanece uma característica comum: o homem recebe algo que não produziu e cuja autoridade não nasce da intensidade psicológica da experiência, mas da iniciativa dAquele que se comunica.

É nesse ponto que qualquer tentativa de formular uma espécie de dicionário espiritual dos sonhos se torna especialmente perigosa. A própria Bíblia não oferece esse instrumento. Quando um símbolo aparece em determinado sonho bíblico, seu sentido pertence àquela narrativa e não se transforma automaticamente numa chave para os sonhos de qualquer pessoa. Sonhar com água, com uma pessoa falecida, com uma viagem, com uma casa ou com qualquer outra imagem não permite concluir, a partir da Escritura, que Deus esteja transmitindo uma mensagem específica.

A revelação bíblica também mostra que a verdade de um sonho não se confirma pela força emocional produzida quando a pessoa desperta. Alguns sonhos provocam medo, outros consolação, outros perplexidade, e alguns permanecem durante anos como algo ainda não plenamente compreendido. O critério não está na intensidade da experiência. Um sonho marcante continua sendo um sonho até que existam razões suficientes para atribuir-lhe outro significado… A prudência cristã começa justamente na capacidade de não transformar imediatamente uma experiência subjetiva em afirmação objetiva sobre a vontade de Deus, sob pena de atribuir a Deus palavras e ações que não são suas.

Ao mesmo tempo, seria inadequado concluir que, por causa dessa cautela, os sonhos nunca tenham participado da revelação. A Escritura afirma o contrário. Em Números 12,6, o próprio Deus declara que, quando há um profeta, ele se dá a conhecer em visão e fala em sonho. Na Bíblia, o sonho aparece entre os meios pelos quais Deus se manifesta, insistindo, porém, na necessidade de discernir sua voz em meio às outras vozes que habitam o coração humano. A prudência cristã não consiste em negar aquilo que Deus fez, mas em não transformar uma ação livre de Deus numa técnica disponível ao homem.

Essa liberdade divina é justamente o ponto em que o sonho volta a encontrar o tema central que estamos acompanhando desde o início desta série. O homem dorme e recebe algo que não procurou produzir. Mesmo quando a mensagem é verdadeira, ele nem sempre a compreende imediatamente. Em certos casos precisará de tempo, em outros de acontecimentos posteriores que mostrem aquilo que as imagens significavam, e em outros ainda a própria mensagem já indicará o caminho a seguir. Somente após eventos posteriores é se pode ter certeza de que Deus se utilizou de um sonho para transmitir uma revelação.

Essa precedência ensina algo importante para a vida espiritual, porque nossa tendência é desejar que Deus fale de maneira tão clara que nenhuma incerteza permaneça e nenhuma espera seja necessária. A Escritura apresenta um caminho menos controlável. Há palavras que somente serão compreendidas depois, promessas cujo alcance aparece durante a caminhada e experiências que precisam permanecer por algum tempo guardadas na memória antes que possamos dizer com segurança o que significaram.

O sonho bíblico, por isso, não nos ensina a procurar mensagens escondidas em tudo aquilo que acontece durante a noite. Ele nos ensina a respeitar a liberdade de Deus e os limites de nossa compreensão… Quando Deus fala, sua palavra não depende de um código inventado pelo homem para ser verdadeira, e quando o homem ainda não compreende, a pressa não torna a mensagem mais clara. José precisou atravessar anos até reconhecer o alcance dos sonhos de sua juventude, Daniel confessou que os mistérios pertenciam a Deus e São José recebeu palavras que ganharam sua forma concreta quando ele se levantou e começou a obedecer.

Entre o sonho e sua compreensão existe, muitas vezes, uma história inteira. É dentro dela que aquilo que foi recebido encontra seu lugar e que o homem percebe, olhando para trás, que a mensagem chegara antes que ele tivesse condições de compreender tudo o que ela carregava.

Continua.