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SCRIPTUSFÉ - RAZÃO - TRADIÇÃO
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Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Primeira parte

O sono na história da salvação: a iniciativa de Deus, a liberdade humana e a prudência no discernimento dos sonhos.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

13 min de leitura

Caro(a) irmão(ã),

Estes dias, deparei-me mais uma vez com o drama de alguém que teve sonhos recorrentes com o mesmo tema e com as mesmas pessoas e que se angustiou seriamente com a insegurança causada pela seguinte dúvida: esses sonhos são algum tipo de aviso da parte de Deus ou são somente fruto de minhas experiências e movimentos interiores? De fato, não é incomum que fiéis procurem um sacerdote em busca de uma possível interpretação para seus sonhos. Ocorre que, em 99,9% dos casos, a resposta mais adequada e mais verdadeira é: não sei.

É inegável que, na História da Salvação, encontramos muitos relatos de acontecimentos misteriosos ligados ao sono e até mesmo de situações nas quais Deus se serve de sonhos. O problema é que não existe uma forma segura de compreender antecipadamente os desdobramentos desses acontecimentos antes que eles mesmos se esclareçam. Sim, eu sei que isso parece frustrante. Seria ótimo se já soubéssemos do que se trata no exato momento em que despertamos, mas não é assim que funciona. Seria temerário, para dizer o mínimo, estabelecer algum tipo de sistema de interpretação ou decodificação dos sonhos com o objetivo de extrair deles revelações.

Isso, porém, não retira do tema sua beleza nem seu interesse. Ao contrário, foi justamente essa tensão entre aquilo que a Escritura narra e aquilo que podemos legitimamente afirmar hoje que me levou a estudar um pouco mais o assunto e a escrever sobre ele. Meu desejo é contribuir, de alguma maneira, para o crescimento espiritual de quem se interessa pelo tema e, ao mesmo tempo, responder a algumas das dúvidas mais frequentes que aparecem na vida pastoral.

O assunto merece atenção também por outro motivo. Quando não sabemos distinguir aquilo que pertence à fé cristã daquilo que vem de crenças populares, práticas divinatórias ou interpretações supersticiosas, corremos o risco de misturar elementos estranhos à Revelação com aquilo que professamos como cristãos. E, pouco a pouco, sem perceber, acabamos atribuindo a sonhos, sinais ou coincidências uma autoridade que a própria Escritura nunca lhes concedeu dessa maneira.

Dividirei o tema em algumas partes. Ainda não sei exatamente quantas serão. Vou escrevendo à medida que estudo, procurando respeitar o ritmo das próprias questões que forem surgindo. Se você tiver alguma dúvida, poderá entrar em contato pelo e-mail contato@padrethiagohenrique.com.

Boa leitura e bom estudo. Deus abençoe sua vida.

O sono na história da salvação

A noite ocupa um lugar particular nas Sagradas Escrituras. Nela, o homem é colocado numa condição diferente daquela em que normalmente conduz a própria vida, toma decisões, organiza tarefas, responde ao que acontece e procura manter alguma forma de domínio sobre o mundo ao redor. Quando chega o sono, esse domínio se enfraquece, os sentidos se recolhem, a vigilância diminui, a atividade consciente perde intensidade e a pessoa já não acompanha com a mesma clareza aquilo que se passa fora dela. O mundo, no entanto, não interrompe seu curso por causa disso, a história não fica suspensa e a ação de Deus tampouco depende da capacidade humana de permanecer desperto. É nesse espaço, no qual o homem deixa de conduzir diretamente os acontecimentos, que alguns textos bíblicos adquirem uma força particular e começam a sugerir uma linguagem teológica própria.

Ao percorrer a Escritura, chama atenção a frequência com que momentos importantes aparecem ligados ao sono, ao sonho, à noite, ao torpor ou a outras formas em que a consciência e a capacidade de intervenção parecem diminuídas. Em algumas narrativas, alguém adormece pouco antes de receber uma palavra, uma orientação ou uma visão, enquanto em outras o personagem entra num sono profundo enquanto algo decisivo se realiza sem sua participação consciente. Há ainda episódios nos quais a noite se torna o cenário de uma intervenção divina que altera o curso dos acontecimentos, corrige uma decisão, protege uma vida ou confirma uma promessa. Esses relatos não pertencem todos à mesma categoria e não carregam sempre o mesmo significado, mas sua recorrência ao longo da história da salvação merece atenção, sobretudo porque certas imagens reaparecem em contextos distantes e acabam deixando entrever uma coerência que ultrapassa cada episódio considerado isoladamente.

Mas, antes de percorrer esses caminhos, é importante tomar alguns cuidados, começando por não transformar essa recorrência numa regra simples, como se todo sono bíblico tivesse um significado religioso especial ou como se toda experiência noturna devesse ser interpretada como revelação. A Bíblia conhece o sono em sua dimensão comum e humana, ligada ao cansaço, ao repouso, à fraqueza, ao medo, à tristeza e, em alguns casos, à incapacidade de vigiar. Os discípulos, por exemplo, adormecem no Getsêmani quando Jesus lhes pede que permaneçam atentos, e Jonas dorme no interior do navio enquanto uma tempestade ameaça os que estão ao seu redor. Nada nessas cenas permite considerar o sono, por si mesmo, uma forma privilegiada de contato com Deus, pois seu valor teológico depende daquilo que o contexto revela sobre a função que ele desempenha dentro do acontecimento.

É precisamente nesse ponto que alguns textos começam a se distinguir, porque neles o sono deixa de funcionar como simples detalhe de ambiente e passa a modificar a relação do personagem com aquilo que acontece. Enquanto dorme, ele não conduz, não planeja, não executa e não interfere da maneira como faria em estado de vigília, de modo que a origem do acontecimento dificilmente pode ser atribuída à sua iniciativa. Ao despertar, encontra diante de si uma realidade que começou a tomar forma sem que ele a tivesse produzido e percebe que, durante o tempo em que sua própria ação esteve suspensa, a história continuou a avançar. O centro da narrativa, quase imperceptivelmente, desloca-se do homem para aquele que permaneceu agindo.

Esse deslocamento toca uma verdade que atravessa toda a história da salvação, pois a relação entre Deus e o homem não começa no momento em que o homem decide responder, mas numa iniciativa que o precede. Abraão é chamado antes de saber onde sua caminhada o levará, Israel é escolhido antes de compreender plenamente o sentido de sua vocação e o profeta recebe a palavra antes de poder anunciá-la. A liberdade humana permanece inteira, sua decisão conserva o peso que lhe é próprio e a obediência nunca se torna automática… mas a ordem permanece: algo é dado antes de ser acolhido, uma palavra antecede a resposta e uma iniciativa de Deus abre o espaço dentro do qual a liberdade humana poderá agir. A tradição católica reconhecerá nessa precedência uma característica da própria graça. O Catecismo, retomando Santo Agostinho, recorda que até a preparação do homem para acolher a graça já é obra da graça, porque Deus começa em nós aquilo a que depois chama nossa vontade a cooperar (cf. CIC, 2001).

O sono, em determinadas passagens, torna essa precedência quase palpável, porque coloca o personagem justamente na condição em que menos poderia reivindicar para si a autoria do que está acontecendo. Ele não preparou a experiência, não escolheu seu conteúdo, não determinou o momento em que Deus deveria falar e não controlou o caminho pelo qual a palavra chegou até ele. São João Paulo II percebeu algo semelhante ao comentar o sono profundo de Adão em Gênesis 2, observando que o tardemah (palavra hebraica que significa um sono profundo, um torpor ou um estado em que a pessoa fica com sua atividade consciente fortemente reduzida) não designa o sonho comum e que, nos grandes textos do Gênesis em que aparece, acompanha uma “especial ação divina” de consequências para toda a história da salvação (cf. João Paulo II, Audiência Geral, 7 de novembro de 1979, n. 9). A observação diz respeito diretamente a Adão e Abraão, mas ajuda a perceber uma característica que reaparece sob formas diferentes em outros relatos como nos momentos nos quais a diminuição da ação consciente do homem torna mais evidente que aquilo que acontece não nasceu dele.

Essa percepção ganha profundidade quando se observa a relação entre o sono e o despertar, porque em vários relatos o momento noturno concentra a iniciativa divina, enquanto a responsabilidade humana reaparece quando a pessoa desperta e precisa decidir o que fazer com aquilo que recebeu. A revelação não encerra a história, não substitui a liberdade e não transforma o homem num instrumento inconsciente, pois aquilo que acontece durante “a noite” deverá ser acolhido na vida desperta e, em muitos casos, transformado em decisão, obediência, partida, mudança de rumo ou perseverança. Bento XVI chamou atenção para essa dinâmica ao falar de São José, afirmando que o sonho foi a porta pela qual Deus entrou em sua vida, sem fazer dele um sonhador afastado da realidade, porque José permanece um homem sóbrio, capaz de discernir e de agir concretamente diante daquilo que recebeu. A noite, nesse sentido, não retira o homem definitivamente da história, mas o devolve a ela com uma responsabilidade que antes não possuía da mesma forma.

Por isso, uma possível “teologia do sono” não deve ser entendida como valorização da inconsciência nem como suspeita em relação à razão. A Escritura não sugere que o homem esteja mais próximo de Deus quanto menos pensa e tampouco apresenta o estado de sono como ideal espiritual. O que determinados relatos deixam perceber é que a iniciativa divina não depende da plena atividade consciente daquele que a recebe, embora a resposta posterior envolva inteligência, memória, liberdade e discernimento. São Tomás de Aquino, ao estudar os modos do conhecimento profético, distingue explicitamente as comunicações recebidas durante o sono daquelas que acontecem durante a vigília e observa que a imaginação se encontra, durante o sono, mais retirada dos objetos sensíveis, embora a razão possua maior perfeição de julgamento quando o homem está desperto (cf. Suma Teológica, II-II, q. 172, a. 1; q. 174, a. 1). Essa distinção ajuda a manter as duas dimensões unidas: Deus pode alcançar o homem quando sua vigilância está suspensa, mas aquilo que foi recebido ainda precisa atravessar o discernimento próprio de uma pessoa desperta e racional.

Essa mesma distinção explica a prudência com que a Bíblia e a tradição cristã tratam os sonhos, pois nem toda imagem interior possui origem divina e nem toda experiência noturna carrega um significado religioso… Santo Agostinho já distinguia cuidadosamente as imagens que se apresentam à alma durante o sono da realidade que elas representam e advertia para a necessidade de discernir aquilo que foi visto depois do despertar (cf. De anima et eius origine, IV, 34). São Tomás vai ainda mais longe ao reconhecer que os sonhos podem nascer de causas internas, como pensamentos, afetos e disposições corporais, ou de causas externas, e somente em determinados casos podem estar ligados a uma comunicação espiritual (cf. Suma Teológica, II-II, q. 95, a. 6). Papa Francisco retomou essa mesma prudência ao falar dos sonhos de São José, lembrando que o mundo interior não contém somente a voz de Deus, mas também medos, experiências anteriores, esperanças e outras vozes que exigem discernimento (cf. Audiência Geral, 26 de janeiro de 2022). Reconhecer os sonhos autênticos narrados pela Escritura, por isso, não autoriza transformar toda “experiência noturna” em mensagem divina.

É justamente nesse ponto que aparece uma diferença decisiva entre revelação e adivinhação. Na adivinhação, o homem tenta obter acesso ao que permanece oculto por meio de sinais, técnicas ou procedimentos capazes de lhe fornecer algum domínio sobre o futuro ou sobre uma realidade que não consegue alcançar pelos meios ordinários. Na revelação bíblica, o movimento segue outra direção, porque o conhecimento parte da liberdade de Deus e chega ao homem como algo recebido. São Tomás trata diretamente dessa questão ao distinguir o uso legítimo de um sonho proveniente de revelação divina da tentativa supersticiosa de extrair dos sonhos um conhecimento que ultrapassa aquilo que sua verdadeira causa permitiria conhecer (cf. Suma Teológica, II-II, q. 95, a. 6). A diferença, assim, não está simplesmente no caráter extraordinário da experiência, mas na direção do movimento: num caso, o homem tenta penetrar o que está escondido, enquanto no outro é Deus quem se dá a conhecer.

Essa ordem ajuda a compreender por que tantos relatos ligados ao sono aparecem justamente em momentos de transição, quando uma promessa precisa ser confirmada, uma decisão deve ser corrigida, uma vida corre perigo, um caminho precisa ser abandonado ou uma missão começa a tomar forma. A pessoa adormece dentro de uma situação ainda aberta e desperta diante de uma responsabilidade nova, porque a noite não resolveu a história por ela, mas introduziu nela uma palavra, uma direção ou uma certeza que altera o modo como deverá viver aquilo que vem depois. Nos relatos de São José, essa estrutura aparece com especial nitidez, já que cada comunicação recebida em sonho desemboca numa ação tomada depois do despertar, de tal maneira que é possível observar nele justamente a capacidade de acolher interiormente a palavra e tomar diante dela a decisão correta.

Quando esses textos são lidos em conjunto, começa a aparecer uma coerência que não exige atribuir o mesmo sentido a todos eles. O sono não significa sempre a mesma coisa, o sonho não possui sempre a mesma função e a noite não atua necessariamente como símbolo, mas em determinados momentos essas experiências permitem que a Escritura expresse de modo particularmente delicado uma verdade que atravessa toda a revelação: a história de Deus com o homem não começa no domínio humano sobre os acontecimentos. É nesse ponto que o tema do sono se aproxima da teologia da graça, porque a ação divina que precede não diminui a liberdade humana, mas a encontra e a chama a responder dentro de uma relação que já foi aberta por Deus. O homem não começa a história com Deus e tampouco permanece ausente dela, pois se descobre alcançado por uma iniciativa anterior à sua e, justamente por ter sido alcançado, torna-se responsável pela resposta que dará.

Essa percepção precisa acompanhar qualquer análise posterior, porque sono comum, sonho revelador, visão noturna e torpor profundo não se confundem e cada um assume sua função de acordo com a circunstância concreta em que aparece. A riqueza do tema nasce justamente dessa diversidade, na qual experiências humanas semelhantes recebem sentidos diferentes e, sem perder suas particularidades, deixam perceber uma relação constante entre a liberdade de Deus que toma a iniciativa e a liberdade do homem que é chamado a reconhecer, discernir e responder.

A partir dessa chave, os grandes episódios da Escritura ligados ao sono deixam de parecer cenas dispersas e começam a formar um campo de sentido mais coerente, no qual o interesse já não está simplesmente no fato de alguém ter dormido ou sonhado, mas na relação entre aquilo que acontece nesse estado e a maneira como a pessoa desperta diante de uma realidade que a precede. Entre a suspensão momentânea da iniciativa e o retorno da responsabilidade humana, a Escritura encontra uma linguagem singular para mostrar que a graça chega antes da resposta e que, quando o homem volta a abrir os olhos para a história, percebe que Deus já estava nela antes dele.

Continua.