Pular para conteúdo
SCRIPTUSFÉ - RAZÃO - TRADIÇÃO
← Voltar

Escritura e Espiritualidade

Quando o homem dorme - Nona parte

A iniciativa de Deus, a liberdade humana e a resposta concreta à graça.

Padre Thiago Henrique S P Tavares

9 min de leitura

Ao despertar: quando a revelação se transforma em responsabilidade

Depois de considerar o sono, o sonho, o tardemah e a noite como contextos em que a iniciativa de Deus se torna particularmente visível, é preciso olhar para aquilo que acontece em seguida, porque a experiência bíblica raramente termina quando a pessoa recebe uma palavra, uma visão ou uma orientação. Há quase sempre um depois, e é nesse depois que aquilo que foi recebido começa a mostrar sua verdadeira gravidade. O homem desperta, volta a perceber com clareza o mundo ao redor, retoma sua capacidade de decidir e se encontra diante de uma realidade que já não pode tratar como se nada tivesse acontecido. Se durante o sono a iniciativa não esteve em suas mãos, ao despertar aquilo que veio de fora de seus planos começa a pedir lugar dentro deles.

Essa passagem é uma das mais importantes de toda a dinâmica que estamos estudando. Enquanto dorme, o homem não escolhe o momento em que a mensagem chega, não produz por si mesmo aquilo que lhe é comunicado e não controla inteiramente a experiência. Quando desperta, porém, aquilo que antes foi recebido passa a tocar sua liberdade e a revelação, se de fato ocorreu, não permanece fechada no instante extraordinário em que foi dada, mas procura alcançar a existência concreta, as escolhas, os vínculos e o modo como a pessoa continuará sua história.

Esse movimento aparece com grande clareza em São José. O Evangelho de Mateus não se detém longamente sobre o que ele sentiu durante os sonhos, nem procura reconstruir sua experiência interior com detalhes. O evangelista prefere mostrar aquilo que acontece depois: “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado” (Mt 1,24). A mesma dinâmica reaparece quando ele recebe a ordem de fugir para o Egito e, mais tarde, de retornar. A palavra chega durante o sono, mas sua verdade entra na história quando José permite que ela modifique aquilo que havia decidido fazer.

É justamente aí que o despertar ganha peso teológico: Antes do sonho, José já possuía um plano em relação a Maria, depois, age de outro modo, porque reconhece que a realidade é maior do que aquilo que havia conseguido compreender sozinho. O despertar não representa, assim, simples retorno ao estado de vigília, mas o momento em que uma palavra recebida de fora rompe a suficiência de um projeto já traçado e exige que ele seja revisto.

Essa passagem ajuda a perceber que a experiência espiritual não pode ser medida somente pelo impacto que produz enquanto acontece. Uma mensagem pode emocionar, assustar, consolar ou impressionar profundamente, mas esses efeitos permanecem incompletos enquanto não alcançam a vida concreta. A Escritura desloca nossa atenção do acontecimento extraordinário para aquilo que ele produz depois, porque a autenticidade da experiência começa também a aparecer no modo como ela reorganiza a existência, de modo que o evento extraordinário é o primeiro de uma série que o confirma e o encarna na vida dos que toca.

Esse princípio vale para muitos outros relatos bíblicos. Abraão recebe uma palavra e parte. Samuel escuta uma voz e passa a colocar sua vida diante dela. Os profetas recebem uma missão que modifica o rumo de sua existência, muitas vezes contra suas próprias inclinações. Jonas tenta escapar daquilo que ouviu e descobre que fugir da missão não faz desaparecer a palavra recebida. Maria acolhe o anúncio e permite que toda a sua vida seja atravessada por ele. Pedro escuta o chamado e deixa as redes. Em cada caso, a iniciativa vem de Deus, mas seu alcance só se torna visível quando começa a tocar concretamente a história de quem foi chamado. Se qualquer um desses tivesse dito “não” ao Senhor, nós nem saberíamos que houve em algum momento a iniciativa de Deus de, extraordinariamente, tê-los chamado.

É por isso que a tradição cristã sempre preservou a relação entre graça e liberdade. Deus precede, mas sua ação não transforma o homem em objeto inerte. Santo Agostinho expressa essa relação de modo conhecido ao afirmar que Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós. Santo Tomás de Aquino desenvolverá essa mesma verdade ao explicar que Deus move a vontade humana sem destruir sua natureza livre. A iniciativa divina e a ação humana não ocupam o mesmo lugar, mas também não se excluem… a graça abre aquilo que a liberdade será chamada a assumir.

O despertar oferece uma imagem especialmente adequada dessa relação. O homem percebe que aquilo que recebeu não começou nele, mas agora precisa decidir se permitirá que essa realidade encontre espaço em sua existência. A passagem do sono para a vigília torna visível o movimento entre dom e acolhimento, entre aquilo que precede e aquilo que passa a depender da liberdade daquele que foi alcançado. Ao despertar, qualquer um em qualquer situação que recebe uma missão de Deus, é como se despertasse em uma nova realidade, muito maior e mais abrangente do que já havia visto e experimentado.

Essa perspectiva corrige uma tendência bastante comum na vida espiritual, que consiste em valorizar excessivamente a experiência e dar pouca atenção ao que ela produz depois. Há pessoas que procuram sinais, consolações, sonhos, coincidências ou momentos intensos de oração e acabam atribuindo grande importância ao fato de terem vivido algo incomum, sem perceber que a questão mais séria começa justamente quando a experiência termina… Se aquilo que aconteceu não modifica em nada a verdade com que a pessoa vive, a caridade com que trata os outros, a fidelidade aos seus deveres ou a relação concreta com Deus, é legítimo perguntar que lugar real aquela experiência ocupa em sua vida espiritual.

Isso não significa que toda ação de Deus precise produzir mudanças espetaculares. Muitas vezes, aquilo que se pede é discreto e quase invisível aos outros, como retificar uma intenção, abandonar um ressentimento, perseverar numa obrigação, assumir uma responsabilidade ou modificar silenciosamente uma atitude. O que importa não é a grandeza externa do gesto, mas o fato de aquilo que foi reconhecido encontrar correspondência na vida.

Também por isso a liberdade permanece decisiva. O homem pode reconhecer algo verdadeiro e ainda resistir. A Escritura conhece hesitação, fuga, protesto e recusa, mostrando que compreender e acolher não são a mesma coisa. Quando São José se levanta e faz aquilo que lhe foi pedido, sua grandeza não está no fato de ter sonhado, mas em ter permitido que a palavra recebida se tornasse critério para seus passos seguintes, como homem capaz de escutar interiormente e transformar a escuta em ação concreta. O sonho, em sua vida, não se fecha sobre si mesmo e não se torna objeto de fascínio. José não permanece preso à experiência noturna, porque aquilo que recebeu o devolve imediatamente à realidade, agora iluminada por uma compreensão que antes não possuía.

Esse movimento ajuda também o cristão de hoje a examinar aquilo que vive. Muitas vezes, perguntamos se Deus falou, mas prestamos pouca atenção ao que mudaria se a resposta fosse positiva. Se alguém reconhece um chamado à reconciliação, a questão deixa de ser apenas aquilo que sentiu durante a oração e passa a envolver a relação concreta que precisa ser restaurada. Se percebe um dever de justiça, o discernimento alcança sua maturidade quando começa a tocar as escolhas reais. Se reconhece uma vocação ou uma responsabilidade, chega um momento em que a experiência interior precisa encontrar forma na existência.

É claro que esse movimento exige prudência, uma vez que nada do que foi dito nos artigos anteriores perde sua validade: É necessário discernir, confrontar a experiência com a fé, evitar a superstição e reconhecer os limites da própria compreensão. A questão aqui começa depois, quando uma direção já se mostra suficientemente clara. Nesse momento, prolongar indefinidamente a procura de novos sinais pode deixar de ser prudência e se tornar uma maneira de evitar aquilo que já foi reconhecido.

A vida espiritual também não garante que aquilo que precisa ser feito venha acompanhado de conforto emocional. A obediência pode coexistir com medo, sofrimento ou insegurança. O próprio Cristo, no Getsêmani, mostra que a fidelidade à vontade do Pai não elimina a angústia humana… Isso impede que se confunda a verdade de uma decisão com a facilidade de tomá-la, porque algumas das escolhas mais fiéis exigem justamente atravessar aquilo que gostaríamos de evitar…

Tudo isso retorna ao mesmo ponto: o despertar simboliza o momento em que aquilo que foi recebido deixa de permanecer apenas na experiência interior e começa a pedir lugar na vida. O homem não se torna autor da graça porque coopera com ela, mas também não permanece fora da história que essa graça abriu. A iniciativa de Deus o precede, e a liberdade humana começa a mostrar sua verdade quando assume concretamente aquilo que lhe foi confiado. Durante o sonho, há imagens, palavras e acontecimentos que escapam ao controle. Depois, a pessoa acorda e encontra diante de si a mesma casa, as mesmas pessoas, os mesmos deveres e as mesmas limitações. A revelação não a retira do mundo, mas a devolve ao mundo com uma consciência diferente: São José acorda e recebe Maria… acorda e parte para o Egito… acorda e retorna a Nazaré. A palavra recebida durante a noite se converte em passos dados durante o dia, e é precisamente aí que aquilo que parecia extraordinário encontra sua forma mais profunda: deixa de ser somente experiência e passa a fazer parte de uma vida e a produzir na vida a vontade de Deus.

Note que toda a vida cristã guarda algo desse movimento: Deus precede, chama, ilumina e oferece, mas aquilo que vem dele não permanece destinado a um instante isolado, mas quando alcança verdadeiramente a pessoa, começa a tocar a maneira como ela vive. E, por isso, o despertar não é simplesmente o momento em que os olhos se abrem, mas o instante em que aquilo que foi recebido encontra seu lugar na história através daquele que o recebeu.